A MULHER PEDINDO ESMOLAS – Pão de Canela e Prosa
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A MULHER PEDINDO ESMOLAS

Eu vi, em um semáforo, uma senhora, possivelmente com mais de sessenta e cinco anos, negra, de roupas bem humildes, mas limpas, pedindo esmolas. O rosto de expressão branda, apesar de sofrida, não sorria, não chorava, talvez ela nem soubesse falar direito. Ela pedia esmolas esticando a mão para os motoristas que, na maioria das vezes não tinham o que dar.
Pensei: “O que será que a vida poderia oferecer à essa mulher?”
Outros pedintes aparecem de vez em quando nos sinais esticando as mãos e a gente sempre pensa que aquele rapaz jovem poderia estar trabalhando, poderia estar “capinando um terreno”, “carregando um peso qualquer”… Mas será que lhe foi oferecido esse terreno pra capinar ou esse peso pra carregar? Será que alguém se preocupou em dar algum trabalho, enquanto era possível, para essas pessoas que hoje pedem nas ruas e, sem preparo, não sabem fazer nada e por isso mesmo, não têm condições de arrumar um emprego.
Não sou nenhum membro de nada, não sou político, nem politiqueiro, não sou de nenhum partido nem sou contra ou a favor de coisa nenhuma, nem falo o que não posso fazer, mas essa situação me incomoda bastante.
Essas pessoas que hoje pedem nos sinais de trânsito, precisavam ter tido um apoio diferente familiar, social, para se manterem e não ter que estar nessa condição de pedintes.
Pedir, antes de tudo é uma forma de se humilhar. É colocar-se abaixo daquele que tem e que pode “matar a fome” do que nada tem. Essa humilhação faz com que aquele ser é diminuído na sua condição de ser humano se sinta muito mal. Faz com que seja um nada no contexto da humanidade. E essa pessoa, esse “nada” acaba se acostumando a ser nada.
A senhora pedia esmolas. Eu pensei em sua família. Teria filhos? Netos? Teria alguém para ajudá-la no seu dia-a-dia? Na sua fome? No seu tratamento de doenças do corpo e da alma? Ela teria alguma doença na família? Seria ela uma doente e sem companhia? Estaria perdida na rua?
Não sei! Não teria como saber no curto intervalo do sinal fechado. Procurei no meu porta-trecos as moedas que deixo ali para pedágios e quando procurei por ela, ela já se distanciava para a calçada, o sinal já estava verde e eu tive que seguir em frente.
Não consegui parar de pensar naquela mulher! Não acredito que eu possa mudar o mundo onde milhões e milhões estão satisfeitos, ricos e pobres, em suas zonas de conforto. Não conseguiria rever todos os casos dos pedintes de rua da cidade e nem arrumar emprego para ninguém, mas alguma coisa deveria ser feita para esses pobres que não têm nenhuma perspectiva a não ser pedir ajuda.
Há, certamente aqueles que são mal-caráter, usuários de drogas -outros infelizes que precisam de ajuda -, bandidos, que se passam por pedintes para realizar alguma má ação. Porém, o semblante pacífico daquela velha senhora pedindo esmolas no sinal me acompanhou o dia todo. Será que vou tornar a vê-la? O que poderei fazer por ela além de lhe dar esmolas?

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

4 comentáriosDeixe um comentário

  • Aprendi com alguém especial que as minhas atitudes em relação a ajudar pessoas “de rua” devem ser feitas de acordo com o que o meu coração mandar. Ajude, da forma que puder, se a pessoa necessitada impactar sua vontade de ajudar. O que isso trouxer de consequência foge à nossa capacidade. Gostei do texto. Se a encontrar de novo, que tal conversar com ela?

  • Sinceras e verdadeiras palavras. Fatos diários. Aconteceu algo parecido comigo. Uma senhora estendeu a mão me pedindo ajuda. Não lhe dei dinheiro porque realmente não tinha mas, coloquei minha mão sobre a dela, me sentei ao seu lado e conversamos muito. Saí de lá muito melhor, na realidade eram as minhas mãos mto mais necessitadas.

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