A PACIENTE IDOSA – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

A PACIENTE IDOSA

Hoje, eu estava no consultório e chegou uma paciente de noventa e dois anos que operei de colecistectomia – o procedimento foi feito na senhora de idade avançada devido à urgência do quadro. Ela entrou sorridente e depois de um abraço caloroso, me disse que estava muito bem salvo alguns momentos que sentiu dor localizada ou algum enjoo.
Ela trazia consigo uma acompanhante que ao entrar já demonstrou extrema falta de paciência com a idosa que, mãe de cinco filhos, avó e bisavó, morava sozinha e não via os descendentes há meses. A acompanhante perguntou a mim e aos meus alunos se ninguém queria ficar com “a velha” – nome carinhoso com o qual tratava a senhora. Orientei novamente a paciente – bastante lúcida para a idade – e à acompanhante que me pareceu não estar nem um pouco interessada no que eu dizia sobre os cuidados a se tomar no pós-operatório.
Ela saiu e eu fiquei pensando na pobre idosa que tinha feito tanto, tinha uma família e na realidade não tinha nada.
Um mundo em evolução como o nosso não está preparado para o que estamos desenvolvendo nas diversas áreas que cuidam da saúde no geral. Estamos descobrindo e tratando muitas doenças que até poucos anos atrás não nos seria possível. Estamos prolongando o tempo de vida do ser humano na terra e, muitas vezes, conseguimos viver um século. Que beleza! Estamos cuidando de doenças e prevenindo várias, mas estamos sabendo cuidar disso?
Como o mundo é dinâmico, não temos tempo para cuidar daquela pessoa que fez tudo por nós, quando precisamos, mas que agora atrapalha a nossa vida de trabalho, compromissos e festas. Não temos paciência para ouvir a mesma história que se repete na boca dos nossos queridos antepassados que nos deram nome – para a árvore genealógica é importante -, que nos deram casa, comida, escola – agora temos que pensar na herança, se ainda não foi distribuída em vida -, que nos deram amor, colo, apoio psicológico nas nossas derrotas, aplausos nas nossas vitórias, que nos deram tudo que quiseram dar – sem serem obrigados a isso, sem regras ou punições se não o fizessem – apenas por amor.
Amamos perdidamente nossos velhos, ou não – ninguém tem que amar um membro da família porque é da família -, amamos à distância. Se temos que dispor de tempo para cuidar, ou para ouvir, conversar, dar a mão, apoio psicológico na sua velhice, isso incomoda! Que saco! Eu tenho um compromisso hoje e tem aquele velho que preciso visitar.
Como não temos tempo, arrumamos um cuidador. Arrumamos uma pessoa estranha que fica durante o dia, outra que passe a noite. Se não der certo, ou se a casa não comporta mais esse ancestral, temos casas de repouso – algumas muito bem estruturadas, outras que deixam a desejar e muito -, temos asilos, hospitais, só falta mesmo existir uma cadeia pra prender o velho porque ele cometeu o crime de envelhecer.
No seriado antigo “Família Dinossauro”, houve um episódio onde a sátira à essa condição do idoso foi abordada com a lei entre aqueles animais que dizia que a pessoa aos setenta e cinco anos de vida tinha que ser lançada no poço de piche. Acabava o problema da família comemorando o assassinato do velhinho. Que coisa interessante! Será que ninguém nunca pensou em fazer isso entre os humanos?
Há pessoas que se anulam em prol de seu pai ou mãe e cuidam ferrenhamente até sua morte e, pior, algumas pessoas não entendem que um dia, todos nós vamos morrer. Há um momento em que aquele ser que tanto amamos vai morrer primeiro que nós e temos que aceitar que isso aconteça.
Enfim, o que vemos com frequência é o idoso virando um estorvo, um espinho no pé e não sabemos lidar com essa longevidade que tanto buscamos com tanta prevenção, cuidados e tratamentos. Será que o velho, bem velho, lúcido, consegue ser feliz com tanta limitação, com tanta dor, com tanta falta a que é imposta a sua vida? E a solidão? Será que todo idoso suporta essa solidão da sua idade? Ele perdeu todos que amava e alguns mais novos, ninguém pára para ouvir o que ele tem a dizer, ninguém lhe diz mais “eu te amo”, “eu gosto de você”…
Ninguém mais gosta. Nem ele mesmo gosta tanto de viver tanto. Será que vive? A qualidade da vida desse ser que tanto fez e não consegue fazer quase mais nada sozinho, é boa? Existe qualidade de vida realmente?
A cuidadora da minha paciente estava impaciente para ir para casa com o seu “material de trabalho” e além de ter-nos perguntado se queríamos a idosa, disse-nos que iria deixá-la dali a alguns dias por estar de saco cheio da “velha”. Aquela jovem impaciente iria embora e a família iria arrumar outras até que a mulher morresse para lhes dar sossego! Chorariam no sepultamento, mas dar-se-iam conta de que estavam livres do problema até que mais pra frente também se tornassem problemas de outrem.
Assim o mundo continua girando e o homem vivendo sua humanidade!
Talvez, o poço de piche…

Sobre o autor Ver todas as postagens

Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

2 comentáriosDeixe um comentário

  • Infelizmente é o mundo que vivemos, aqui bem relatado. Isso dói muito porque as pessoas dependentes, tornam-se apenas objeto de lucro para outras que tem no lugar do coração, um cofre.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados *