AINDA EXISTEM CAVALHEIROS – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

AINDA EXISTEM CAVALHEIROS

_ Pode sentar-se aqui! – disse a voz do rapaz que se levantara e oferecia o seu lugar a uma senhora gorda.

Com isso talvez, ele procurasse ser cavalheiro, talvez mostrasse aos que o olharam que ainda se podia ser gentil em pleno início de fim de século XX.

O povo o olhava incrédulo como a se perguntar por que será que ele havia dado o seu lugar. Por que será que ele preferira ir em pé? Na maioria das cabeças ocorriam pensamentos de desrespeito à senhora: – Será pelo decote? Será que ele…?

O rapaz se sentindo observado, julgado, começa a suar frio e rezar para que chegue logo o ponto onde vai descer, ou para que desça alguém e ele possa descansar as mãos cansadas e frias de segurar o cano que corre por todo o teto do ônibus.

A viagem é demorada. O rapaz tenta cochilar, em pé não dá. A dona, como uma manga podre, se esparramou na cadeira e adormeceu. Sonhava talvez, com a noite que caía. O motorista dobrava curvas, comia retas e levava o ônibus.

O rapaz sentia câimbras nos pés, dores nas mãos, dor na coluna, sono, fome, frio, enfim tudo o que nós humanos temos o direito de sentir. Mas ele não se sentaria! Ele não mostraria cansaço, dor, sofrimento…

Ele se manteria em pé, pescando no decote da senhora, sofrendo pelo prazer de mostrar que ainda existem cavalheiros. Santos Dumont/Barbacena.

 

Maloca Querida, 1998:51-2.

Imagem: http://www.midiamax.com.br/justica/idosa-sera-indenizada-r-18-mil-ser-obrigada-viajar-pe-334676

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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