ALCÉPIO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

ALCÉPIO

 

– Alcépio Carlos de Jesus – chamei o meu próximo paciente.

Levantou-se um casal, vestidos a contento, roupas de boa qualidade e senti o cheiro: – o último banho deve ter sido na época do Dilúvio.

– O que está acontecendo, Alcépio? – perguntei ao rapaz de seus vinte e oito anos de idade.

– Sabe, doutor, eu estou tendo uma dor de cabeça rotatória – respondeu-me ele.

– Como é que é isso? perguntei-lhe.

– Sabe, quando dá a dor, roda tudo.

Olhei para a mulher que me sorriu um sorriso cheio de dentes estragados.

– Mas, Alcépio, há quanto tempo vem acontecendo?

– Desde segunda-feira!

– Mas hoje é segunda-feira. Uma semana?

– Não! Então é desde sábado.

– Você nunca teve isso, Alcépio?

– Já, quando eu era mais novo.

– E você foi ao médico nessa época?

– Não – respondeu-me ele. – A única vez que eu fui ao médico foi quando precisei de atestado de “saneamento” físico e mental para o serviço.

– Certo – disse-lhe eu, querendo rir, sem poder. – Você já fez algum exame para essa dor?

– Não. Eu vou ter que ir no oculista porque quando roda tudo eu enxergo pouco.

– E nunca tomou remédios, Alcépio?

– Não – respondeu ele e a mulher sorriu de novo.

Depois de muito conversar e depois de examina-lo, percebi que havia a necessidade de encaminha-lo ao neurologista.

– Olha, escrevi aqui para você pegar uma guia para ir ao neurologista, Alcépio.

– Será que é “enxacueca”? – perguntou-me a mulher.

– Pode ser. Talveez.

O casal saiu e eu, após arejar a sala impregnada pelo seu cheio ruim, voltei a sala e chamei:

– Antônio José de Oliveira.

Como não houve resposta, atendi o próximo paciente e depois de umas três ou quatro chamadas ao Antônio José de Oliveira, perguntei aos meus auxiliares porque marcaram uma consulta de encaixe para um paciente que não estava ali. Não souberam me responder onde ele poderia estar, mas que esteve, poderiam jurar.

Voltando ao meu consultório a encarregada da emissão das guias me procurou para me dizer que Alcépio não era nosso neurologista credenciado. Expliquei-lhe que Alcépio era o nome do paciente e ela se foi.

Em mais uma de minhas entradas na sala de espera, levanta-se um rapaz e me pergunta:

– Doutor, o senhor não vai me chamar?

– Como é seu nome? – perguntei.

– Alcépio – respondeu ele.

– Outro Alcépio? Não é possível!

– Claro que não, doutor. Eu acho que sou o único no mundo a ter esse nome.

Rimos e eu entrei com ele no meu consultório e pudemos constatar que o personagem da “cefaleia rotatória” era na verdade o Antônio José de Oliveira que foi atendido no lugar do Alcépio e, pior, deixou-se chamar o tempo todo por Alcépio.

– Meu filho – disse eu para o verdadeiro Alcépio, – eu chamei o cara de Alcépio o tempo todo e até mesmo no encaminhamento que fiz para o neurologista, escrevi Alcépio e ele nada disse.

– Mas doutor, ele foi encaminhado para o neurologista, não seria melhor encaminhar para a psiquiatria?

Rimos. Depois disso, nunca mais vi nenhum dos dois Alcépios.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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