CRÔNICAS – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

Categoria -CRÔNICAS

FOME

Uma mulher magra! Muito magra, com os ossos à flor da pele, se é que lhe restava pele. Vestida de molambos, rasgados pelas madrugas dos frios invernos de calçadas, cada dia mais nua. Com um passado negro, um futuro horrendo e um presente famintos, a esmolante anda pelas ruas de belos apartamentos e carros. Aos seu pés chora o filho que quer...

CORRER DEVAGAR

O homem de terno correu e atravessou a rua mesmo com o sinal estando aberto para pedestres. Ninguém observou nada de anormal, mas do outro lado da rua o homem do terno foi abalroado por um homem sem terno, mais novo, mais magro, que indagou: _ Por que o senhor correu se o sinal estava fechado? _ Porque eu estou com pressa – respondeu o homem...

QUEM PROCURA SEMPRE ACHA

Todo dia quando ele entrava naquela rua tinha um frio na espinha e pensava que algo de ruim iria acontecer com ele. Era uma rua curta, mas a iluminação era precária e ele tinha que passar por ali para chegar em casa. Saia do trabalho às vinte e uma horas e quando passava naquele trecho específico imaginava-se sendo vigiado por alguma força...

O MAR

Ele olhava fixamente o mar a sua frente. O azul penetrava na sua mente e ele voltava ao passado, ele buscava no seu íntimo a razão daquela existência e do que fazia ali. Não havia motivos expressivos para estar tão só e com tanta dor espiritual e psicológica. Doíam-lhe as entranhas de se saber só e o porquê de tudo aquilo. O céu...

AINDA EXISTEM CAVALHEIROS

_ Pode sentar-se aqui! – disse a voz do rapaz que se levantara e oferecia o seu lugar a uma senhora gorda. Com isso talvez, ele procurasse ser cavalheiro, talvez mostrasse aos que o olharam que ainda se podia ser gentil em pleno início de fim de século XX. O povo o olhava incrédulo como a se perguntar por que será que ele havia dado o seu...

O COVEIRO

Adélia era a mais bonita de todas as filhas de D. Clementina e a única viva da família. Com seus dezoito anos de beleza universal, Adélia era triste e sem a juventude necessária à idade. Como era de costume, toda semana levava flores ao túmulo da mãe e das irmãs. E é aí que a encontramos agora: – sentada na sepultura branca, fria...

O BÊBADO

Deitado em uma mesa do Pronto Socorro estava um bêbado. Eu já o tinha atendido, medicado e percebera que era apenas um estado de embriaguez com algumas escoriações no rosto. Mandei que a enfermeira fizesse uma limpeza em seu rosto, curativo… Não havia mais o que lhe dar, deveria deixa-lo ficar deitado até chegar alguém de sua...

A LINHA TÊNUE DA VIDA

O ser humano vive em uma linha tênue entre a sanidade e a loucura. Se sair demais da superfície, tende a ser louco e fora do contexto da normalidade aceita pela sociedade. Se afundar demais, cai na depressão e tristeza profunda correndo o risco de tentar o autoextermínio. Vive-se na linha bamba em todos os momentos. Há necessidade de vigiar e...

A SURPRESA

A amorada lhe fizera surpresas. Viera de longe, sentira saudade e resolvera: “É hoje” – dissera-se ela. E lá se foi, tomou o ônibus na cidadezinha do interior, viagem dura, o tempo não passava… O calor do ônibus, o bafafá dos vizinhos de poltrona… Enfim, a cidade do namorado se aproximava. O sorriso se lhe aflorou ao rosto...

SÓ ISSO

Ela entrou no meu consultório, bonitinha, sessenta e poucos anos, vestida de flores estampadas no vestidinho preto, cabelos brancos presos um pouco acima da testa com um prendedor vermelho, olhos ativos, boca pintada e me disse: – Bom… dia… doutor… – Bom dia! – respondi-lhe eu, cumprimentando a sua acompanhante, e...