DEVERÍAMOS ANDAR NUS – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

DEVERÍAMOS ANDAR NUS

Eu acho que todos deveríamos andar nus.

Tudo seria muito mais fácil. Por exemplo, eu tenho uma calça amarela que não dá para usar com qualquer camisa. Minha calça verde oliva, não combina com minha camisa azul royal. E a combinação da minha coleção de meias coloridas com minha coleção de gravatas? Isso se torna quase impossível!

Brincadeira a parte, se estivéssemos nus nas ruas, não teríamos que ver pessoas manequim 54 usando roupas 42. Estão espremidas dentro de um panos, nem sempre bonitos, porque a manequim linda de corpo maravilhoso usou. Mas a manequim linda e de corpo maravilhoso tem espelho em casa e bom senso.

A roupa surgiu quando o homem começou a pensar um pouco e viu a necessidade de proteger o seu corpo do frio, do calor, das agressões naturais do dia a dia. O homem primitivo começou a se cobrir de peles de animais – isso é proibido hoje! – e outros materiais naturais para manter a temperatura corporal. Depois, essa proteção virou roupa. Ninguém passou a se cobrir depois que Eva e Adão comeram a maçã e perceberam que estavam nus, como nos contavam nossos avós. Aliás para nosso avós, ficar nu até no escuro era pecado: Sempre que alguém estava nu o anjo da guarda se afastava e dava chances ao demônio de se aproximar do “sem vergonha”.

Depois a roupa ganhou uma conotação diferente: a moda! Você tem que comprar tal ou qual marca, usar essa ou aquela cor, combinar o lenço do bolso do paletó com a cueca, ou se o vestido for muito justo não combina usar nada por baixo. E o preço da roupa é uma loucura. Já se disse que as pessoas mais simples e com menor poder aquisitivo compram roupas e calçados mais caros e os ricos, exceto em ocasiões especiais, usam aquelas mais baratas e comuns. Um vestido pode chegar a alguns milhares de dólares e um terno com o corte perfeito – que é uma delícia usar – pode também custar muitas libras. O material é outra coisa importante na confecção das roupas. Hoje quase não se usa seda ou linho puro, mas muito tecido sintético e nem sempre bonito. Há roupas que são rasgadas, furadas, mal-tratadas em descolorimentos, em maceração das fibras para parecerem mais velhas e com isso se tornam mais caras.

É preciso usar esse traje naquela festa e outro tipo de roupa em um lugar mais descontraído. Uma bermuda combina com um tênis de marca e uma camisa de linho com uma gravata italiana. Os homens têm maior facilidade em se vestir para uma festa e o mesmo terno pode desfilar por algum tempo desde que se mude a camisa e a gravata. As mulheres não podem repetir o vestido. E o vestido dessa festa é tão marcante e tão cheio de detalhes que todas as mulheres viram, observaram e comentaram. Essa mulher com o vestido caríssimo, foi observada pelos homens que viram o sorriso, a cor dos olhos, o tamanho dos seios, do quadril, a cor das pernas – se elas aparecerem – e nem vão se lembrar da cor do pano que cobre tudo isso.

Se andássemos nus, no início seria um problema. Quase não andaríamos nas ruas observando que “os peito” da dona Eduardina não pareciam tão caídos ou tão flácidos, comentar-se-ia que o carteiro Roberval não tinha, ou tinha, órgãos genitais tão grandes. Nem parecia que aquele atleta de músculos perfeitos fosse tão pequeno… Ou como a vizinha da rua de baixo consegue andar com aquelas ancas? Depois de um tempo, acostumaríamos com todo mundo pelado e voltaríamos a observar a cor dos olhos, o sorriso amplo e luminoso, a expressão solar de nossos amigos, ou a tristeza daquele que procura o nosso apoio…

Haveria problemas com o sol? Claro! Hoje em dia o sol e o calor estão muito mais intensos. A Cassia Eller cantava “quando o segundo sol chegar…” e a gente fica imaginando que se chegar mesmo a humanidade será dizimada. Haveria problema com o frio? Claro! Frio é muito bom, mas é muito bom porque estamos aquecidos. E uma grande vantagem do frio: podemos usar roupas mais bonitas e ficar mais elegantes.

Mas não deveríamos andar nus? Deveríamos e não deveríamos. Devemos sempre fazer o que quisermos desde que não invadamos o espaço do outro. Se há convenção de que precisamos usar roupas, usemos! Se há esse ou aquele traje específico, fazer o quê? Roupa acaba sendo interessante e empregando muita gente. É um pecado que as antigas costureiras que faziam milagres nos panos estejam em extinção. É mais fácil comprar uma roupa descartável e por isso mesmo mais barata que usar o trabalho desses profissionais da costura que estão tão desvalorizados hoje em dia.

Usemos roupas! Tenhamos o bom senso de não usar coisas ridículas e nem aquelas que não nos são indicadas. Usemos o que quisermos e sejamos felizes.

Mas eu acho que deveríamos andar nus.

Exceto, claro, os advogados, para que a gente soubesse que eles são advogados.

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