DIA DAS CRIANÇAS – O CONTO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

DIA DAS CRIANÇAS – O CONTO

Aproximava-se o “dia das crianças”. Naquela cidadezinha, todo ano, as crianças boas recebiam presentes, as crianças desobedientes castigos. Surgiu, no entanto, espalhados pela cidade, cartazes que só algumas crianças conseguiam ler, com os seguintes dizeres.

“Seja uma criança feliz,
Fuja de casa e venha para a floresta.
Lá estarão te esperando
Maçãs vermelhinhas
Uma casa inteira de chocolate
Um pé de feijão mágico
Uma avó cozinhando no Caldeirão
Uma roca de fiar afiadinha
Um lobo que será seu amigo.
Venha para a floresta,
Amiguinho.”

E as crianças da cidade que leram aquele cartaz ficaram interessadas em ir para a floresta. Mas existia uma ordem dos pais que era proibido a uma criança entrar na floresta desacompanhada porque havia feras e muito perigo entre as árvores antigas.
Em algumas crianças o desejo pela maçã era irresistível, houve até quem ficasse aguada. Outras crianças – chocólatras desde o nascimento – queriam devorar a casa de chocolate a se fartar. Os mais aventureiros, queriam subir no pé de feijão e invadir países e regiões. Os gordinhos queriam ficar ao lado da avó que estaria cozinhando sempre no enorme fogão à lenha. Meninas que adoravam andar bem vestidas queriam conhecer a roca e fazer lindos vestidos dos panos mais finos e lindos. Paulinho, um garotinho forte e desbravador queria ser ele o amigo do lobo.
Na próxima noite de lua cheia, tão logo a lua surgiu no horizonte, uma névoa começou a invadir a cidade e todos os adultos dormiram. Caíram em um sono tão profundo que alguns nem mesmo de roupas trocaram.
E as crianças?
Quando deu dez badaladas no sino da igreja, anunciando que eram dez horas da noite, uma música suave começou a ser ouvida na cidade. Só algumas crianças ouviam. E imediatamente abriram os olhos e sentiram a música. Levantaram-se meio dormindo, nem os chinelos calçaram e começaram a procurar de onde vinha aquela música tão linda.
Paulinho, o menino que gostava de lobos foi o primeiro a ver o flautista. Parecia que ele vinha flutuando na rua principal da pequena cidade. Ele gritou para os outros:
_ É por ali – apontou o dedo. – Vejam. Vamos segui-lo.
As outras crianças seguiram na direção que Paulinho apontou, mas Mariazinha não gostava daquela música, queria mesmo a maçã vermelhinha. Jane era sua amiguinha, mas correu para perto do músico e sorriu para ele. Ele sorriu de volta e virou a cara para o outro lado – ele detestava crianças.
Celinha fazia planos de fazer um vestido novo para ir à missa no domingo. Se havia uma roca, deveria haver bichos da seda e lindos fios para tecer.
Joãozinho não queria fazer nada, mas o cartaz prometia um paraíso e era isso que ele queria: não ter que estudar nunca mais, pensando bem, nunca mais tomar banho.
A música continuou e eles continuaram seguindo o flautista que os levava para a floresta no meio da noite. Eles estavam hipnotizados pelo poder mágico daquela música e daquela flauta. O músico entrou na escuridão da floresta e as crianças o acompanharam. Eram seis crianças com sete a nove anos. As outras crianças da cidade dormiam como os adultos.
O caminho estava iluminado por uma luz vermelha que vinha não se sabe de onde. Parecia que eram olhos que refletiam aquela luz.
Quando chegaram a uma clareira, Julinho que adorava chocolate avistou a casa da avó e correu na frente. Quando chegou perto, viu que as paredes eram de chocolate e ele se aproximou mais e a parede da frente o agarrou e ele desapareceu no meio do doce marrom e cheiroso. As outras crianças não viram nada. Jane entrou na casa gritando pela avó e a velha que cozinhava no enorme caldeirão olhou para ela com um olho vivo o outro morto e sorriu mostrando um único dente na boca velha. Pegou a menina de surpresa e jogou dentro da panela de onde saía fumaça sem ter fogo por baixo. A menina loirinha gritou, mas nenhum amiguinho ouviu.
O lobo uivou no morro mais perto da casa e Paulinho sorriu. Era a hora de conhecer seu amigo. Tentou ir na direção do animal, mas não sabia de onde vinha o uivo do animal. O flautista não estava mais por perto, mas a música continuava. Os meninos que sobraram estavam na frente da casa de chocolate e uma risada muito alta os assustou. Era a avó que estava na porta da casa olhando para as crianças com seu olho quase cego. Ao redor das crianças, estavam em uma mesa, a maçã envenenada, em outra a roca de fiar amaldiçoada, os feijões mágicos e uma faca bem grande e afiada.
As crianças deram falta de Julinho e de Jane e viram que haviam caído em uma armadilha da bruxa da floresta. Quiseram chorar, mas estavam paralisados de medo. Paulinho gritou bem alto:
_ Lobo! Onde está você?
A bruxa riu, mas percebeu que o chão começou a tremer com cada passo que ouvia cada vez mais próximo. O lenhador chegou perto da casa e também ele se assustou com o tamanho do lobo que estava perto da casa.
A bruxa desfez o encanto da casa e x todo sujo de doce foi jogado para fora das paredes de chocolate e antes que as últimas paredes caíssem, o caldeirão frio rolou para perto das crianças e Jane saiu de dentro dele.
_ Sujei toda minha roupa – reclamou ela sem ver o perigo que se aproximava.
O lenhador pegou a enorme faca afiada e quando queria cortar o pescoço de Aninha, o lobo lhe deu uma patada jogando-o para longe. Olhou para Paulinho, o menino seu amigo, e comeu o lenhador. A bruxa na porta da casa esperava o seu destino que foi igual ao do lenhador, foi comida pelo lobo enorme.
As crianças bateram palmas e tudo o que a bruxa criou para atraí-los para a floresta se desfez. Eles precisavam voltar para casa. O lobo voltou a ser um homem que a bruxa havia transformado em lobisomem e, junto a Paulinho, seu amigo, foi na frente abrindo o caminho para a cidade.
Quando saíram da floresta e viram ao longe suas casas, o homem se despediu de Paulinho e voltou para a escuridão da mata, onde sempre morou.
As crianças voltaram para suas casas e aprenderam a nunca mais fazer coisas escondidas dos pais. No dia seguinte iriam contar o que aconteceu e ficariam de castigo por terem feito uma coisa errada e perigosa. Eles desobedeceram as ordens dos pais e por isso não ganhariam presentes no dia das crianças.
Até hoje, quando Paulinho ouve o uivo dos lobos na floresta, ele sabe que os animais são amigos do ser humano e merecem ser preservados, assim como as florestas onde eles habitam.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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