DIÁRIO DO CONFINAMENTO – 1 – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

DIÁRIO DO CONFINAMENTO – 1

22 de março de 2020

Sexto dia de quarentena/confinamento
Postagem 01

Somente hoje eu comecei a escrever esse diário do confinamento do Corona vírus.
Para quê escrever tal coisa?
Para que todos saibam que há mais pessoas passando pela mesma ansiedade e a mesma sensação de prisão domiciliar. Hoje eu saí de casa uma vez, de carro e não desci do carro exceto na minha garagem de volta. Compras, fiz ontem no supermercado o suficiente para nosso fim de semana e vou ter que voltar a me expor amanhã novamente para comprar comida.
Expor-me em um supermercado – lugar que eu adoro ir – é uma coisa até boa de fazer. Sexta-feira, quando eu fui, no entanto, minha vontade era brigar com um bando de “velhinhos sorridentes” que não tinham nada para comprar de necessidade e estavam passeando pelo mercado. Eram todos, com certeza, do maior grupo de risco: mais de setenta anos – todos, com uma doença crônica ou mais de uma – todos e dando bobeira para a infecção – todos nós. Difícil controlar o idoso dentro de casa? Difícil, mas não impossível. Temos que tentar e fazer nossa parte.
Na sexta-feira, eu estava pior. Queria chorar a todo o momento. Tinha dois problemas que não sabia quando se resolveriam. Um deles era a presença na minha casa de uma intercambiária da Alemanha que precisava voltar para casa e só se ouvia dizer que estavam fechando fronteiras e cancelando voos internacionais. Meu outro problema era um tio que em Lafaiete estava em estado avançado de uma doença terminal e, eu como médico, sabia que iria perdê-lo. Acrescido a isso. A própria loucura que está instalando no mundo, agora começando no Brasil, essa devastação virulenta.
A alemã viajou no sábado e mandou notícias hoje de sua casa, está bem. Meu tio faleceu ontem – quase ninguém no sepultamento devido à ordem de isolamento social – mas, agora está bem. A família, no entanto, nessa hora que precisa de um abraço de conforto e carinho, não pode recebê-lo. Eu não pude ir ao enterro do tio que mais gostava!
Ficar em casa! Não ver se tem sol ou se chove. Tenho o que fazer, mas com a cabeça fervilhando com a expansão da pandemia, não é toda hora que consigo. Escrevi, li, pintei – há um ano não pintava nada -, fiz alguma coisa na cozinha, ajudei no que pude em casa, vi televisão – coisa que menos gosto de fazer -, mas o tempo tornou-se maior e está difícil preenchê-lo.
Amanhã é segunda-feira – dia normalmente cheiro, ginástica pela manhã, não pode, aulas à tarde, não pode, cirurgias eletivas, não pode.
O dia enfim, será mais uma luta para não entrar em colapso nervoso, enquanto nosso sistema de saúde se prepara para o que nem imaginamos.
Que Deus nos dê forças!

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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