DIÁRIO DO CONFINAMENTO – 15 – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

DIÁRIO DO CONFINAMENTO – 15

Diário do Confinamento – 15
Dia 24 de abril de 2020
38º dia

Mundo
Contaminados: 2729274, mortos: 191614
Brasil
Contaminados: 50036, mortos: 3343
Minas Gerais
Contaminados: 1308, mortos: 53

O “ficar em casa” nesse confinamento está trazendo alguns problemas para diversas famílias. Como eu já disse, há pessoas que só se suportam se passam bastante tempo do seu dia a dia longe umas das outras. O fato de acordar e tomar o café da manhã juntos e tirar a mesa juntos e tomar banho juntos – mesmo em tempos consecutivos -, ler o jornal juntos, ver televisão em busca de notícias da desgraça juntos, esperar pelo almoço que um ou outro ou ambos farão juntos, arrumar cozinha juntos, arrumar a casa juntos, arrumar o que fazer no imenso tempo livre juntos, juntos, juntos… acaba separando.
Torna-se insuportável essa presença constante um na vida do outro o tempo todo e aquilo que um faz para agradar a quem está ao seu lado, deixa de ser bom para quem faz e deixa de ser natural para quem está por perto e a pessoa se cobra por fazer o que não quer e se irrita e acaba jogando para o outro a insegurança de dias melhores e a culpa por não estar satisfeito ou por estar infeliz.
E as pessoas estão tendo mais tempo para pensar. Pensar coisas boas, pensar coisas ruins. Há um crescente uso de ansiolíticos porque muitas pessoas não estão se suportando. Às vezes, a gente não se suporta! Há dias em que eu estou muito mais agitado que eu consigo me suportar que se eu fosse meu médico eu me daria um sedativo. Mas, enfim, as pessoas sozinhas estão com mais tempo para pensar, para perceberem a intensidade de seus desejos e taras e, mesmo aquelas pudicas, afogam a pudicícia em qualquer copo de água e extrapolam. Está existindo mais assédio. Estão aparecendo mais corpos nus na internet de quem a gente menos esperava e alguns até não deveriam ter ficado escondidos. O ser humano não nasceu para ficar confinado e muitos se desesperam e começam a fazer besteiras.
Não se pode se abraçar, não se pode se beijar, não se pode… fazer sexo? Os casais que moram juntos há anos voltaram a fazer sexo? Aumentaram a frequência da prática? Aumentaram a frequência do prazer solitário presente em muitos casais com longo período de convivência? Ou não teve nenhuma interferência na vida sexual de muita gente?
Os casais que sobrevivem sem sequelas a um período de intensa convivência estarão juntos para sempre. Existe muito mais amizade que simplesmente amor e tesão. Amor esfria, tesão passa, mas a convivência duradoura não é feita somente de sexo.
Hoje o país continua na dúvida: abre ou não as portas das gaiolas em que os humanos se encarceraram e fogem de vez em quando? Abre-se ou não, o comércio, escolas” academias – essa eu torço com toda a força do meu coração -, bares e eventos? Libera geral?
Não sei! Não tenho dados estatísticos para dizer que estamos bem. Não posso afirmar que morreremos, mas só um pouquinho, ou que adoeceremos quase todos (setenta por cento, nas palavras do presidente). Não tenho estatísticas para deliberar isso ou aquilo.
Estamos, no entanto, vendo na televisão Manaus desesperada com o número de mortos e pacientes sem atendimento, Rio de Janeiro e São Paulo abrindo milhares de covas e em alguns lugares os corpos sendo enterrados em valas comuns. A tragédia está no ar. O governador de Minas afirma que o estado é o menos atingido porque iniciou o confinamento e as medidas de prevenção antes de todos os outros.
Estamos vendo profissionais de saúde se contaminando e muitos morrendo no desempenhar de sua função. Alguns amigos e colegas da área estão doentes. Alguns saíram bem, outros morreram. Aplaudo cada alta hospitalar e sofro com cada morte inevitável. Estamos todos expostos, mas nós que militamos na saúde, à frente nas trincheiras, poderemos acertar o inimigo, ou receber um tiro no meio do peito e parar de respirar. Será que vai ter um ventilador para nos socorrer?
Que Deus nos dê a luz para achar o caminho certo.

                  

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

2 comentáriosDeixe um comentário

  • Bem assim…juntos demais pode cansar. Separados demais pode desesperar. Os casais realmente estão vivendo uma cruzada de fogo. Que seja reflexão para todos esse período sufocante e oportunizante para o conhecer -se. Deus conosco. Gostei muito!

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