ENCONTRO NO INFERNO – 1º CAPÍTULO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

ENCONTRO NO INFERNO – 1º CAPÍTULO

Ele resolveu, depois de muitas insistências, encontrar o colega escritor Gilberto Lara. Ele odiava pensar que na última avaliação o “outro” como ele dizia, vendeu um livro a mais que ele. Estavam os dois nos primeiros lugares de venda no país e eram os maiores escritores brasileiros vendidos no exterior. Em alguns países empatavam com Dan Braun e Agatha Christie.
Ele saiu de casa com vontade de não ir ao encontro. Aliás, queria saber quem foi o escritorzinho que, naquela bienal, sugeriu um debate entre os dois. Ele não queria debater literatura com um escritor que estava aparecendo na mídia tanto quanto ele, mas como iriam para uma mesa de debates com centenas de fãs, ele precisava conhecer o inimigo de perto.
Augustus Nigrus, pseudônimo que se dera quando começou a escrever terror, estava a vinte metros do restaurante onde concordou em encontrar Gilberto e ainda pensou em voltar. Sentiu, no entanto, que uma força estranha, como ele nunca havia sentido antes, o empurrava para frente. Ele sentia, contra sua vontade, uma necessidade de entrar naquela lanchonete.
Tomou coragem e entrou no recinto. Claro que foi observado: roupas pretas, rosto muito branco e os olhos vermelhos incandescentes. Alguém – um fã especialmente – diria que à sua entrada ele teria iluminado o lugar de vermelho. Entrou e viu o “outro” sentado a uma mesa em um canto do bar, vestido de preto, em completo anonimato.
_ Olá – cumprimentou ele se aproximando.
_ Senta – ordenou o outro empurrando com o pé a cadeira em frente.
Augustus se sentou ainda sem saber por que e olhou o “concorrente” a sua frente. Ele, como a maioria dos escritores, com o ego transitando na estratosfera, não estava à vontade em frente ao líder atual de mercado na literatura.
_ O que você vai beber? – perguntou Gilberto.
_ Vodca – respondeu Augustus chamando a garçonete.
Ficaram algum tempo calados. O ambiente era silencioso e pareceu-lhes que estavam sozinhos. Gilberto quebrou o silêncio:
_ O que você preparou para a mesa redonda de amanhã?
_ Pensei de falar do trabalho que tivemos para chegar até aqui.
_ Muito assunto – interferiu ele. – Leitor não precisa saber do autor. A gente vai lá amanhã pra vender livros.
_.Não sei! – Augustus conhecia bem o mercado literário brasileiro.
_ Você acha que o público não vai lá ME ver? – perguntou Gilberto.
_ Não! Acho que as pessoas irão ME ver – respondeu Augustus.
_ Você escreve o quê? – perguntou Gilberto.
_ História fantástica, terror – respondeu Augustus.
_ Essas coisas – desdenhou Gilberto esboçando um sorriso.
_ E você? – perguntou Augustus.
_ Meus vampiros e lobisomens vão dominar o mundo – fechou a questão Gilberto.
_ Eu pretendo impedir isso – riu Augustus. – Meus vampiros não são páreo para quem quer que seja.
_ Veremos na mesa redonda – Gilberto se levantou e tentou sair do bar.
Augustus, sozinho naquela mesa começou a perceber que a terra tremia sob seus pés. Sentiu novamente aquela força espiritual que o levara para aquele lugar. Pensou em gritar, mas estava sem forças. Ele ainda viu o rosto branco, de olhos azuis de Gilberto que o encarava assustado. Ele via figuras vermelhas e negras rodando pelo salão. Ele nunca havia escrito sobre aquilo. Enfim, ele percebeu que havia alguma energia muito forte naquele lugar e não vinha do seu colega de escrita.. Gilberto estava apavorado tanto quanto ele. Sombras se moviam pelas paredes e pareceu aos dois ouvirem risos. Um cheiro de enxofre inundou o espaço de mesas, cadeiras ante o olhar pasmo dos presentes.
A terra tremeu tanto naquele lugar que Gilberto não conseguiu sair da lanchonete. Segurou-se em uma mesa e viu ao longe que, como ele, Augustus escorregava pelo chão em sua direção agarrado a outra mesa. Ele previu que iriam se chocar, ele, seu concorrente e várias outras cadeiras e mesas, já que naquele momento, o bar estava vazio. Só havia além deles alguns funcionários da casa.
Quem estava do outro lado da larga avenida Rio Branco, no centro de Juiz de Fora, sentiu a onda de pressão liberada pela enorme explosão de gás que destruiu o prédio de três andares onde a lanchonete famosa ocupava todo o térreo. Passado o susto, a poeira baixou e os curiosos viram que não sobrou pedra sobre pedra daquela construção antiga. Do mesmo modo, não houve sobreviventes.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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