ENCONTRO NO INFERNO – CAPÍTULO 2 – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

ENCONTRO NO INFERNO – CAPÍTULO 2

Augustus se levantou do chão onde permaneceu deitado por um tempo e observou em volta. Não estava mais na lanchonete. O lugar escuro, avermelhado como se houvesse fogo depois da curva à frente, estava imundo e havia um cheiro que ele não conseguia definir o que era, mas se lembrou de ter sentido o mesmo odor na lanchonete antes da confusão. Andou alguns passos tímidos, primeiro porque achou que sentiria mais dor do que realmente sentiu e depois porque não sabia onde estava. Havia olhos que o encaravam e ele não via. Havia espíritos que vagavam ao seu redor e ele não percebia.
Caminhou por dez metros e encontrou Gilberto caído à frente tentando se levantar. Alguns espíritos brincalhões não permitiam que ele se firmasse para se levantar. Sumiram quando viram Augustus.
_ O que houve? – perguntou Gilberto.
_ Não sei! – respondeu ele com raiva de ter que continuar conversando com aquele outro. – Onde estamos?
_ Também não sei – Gilberto olhou em volta, – mas acho que temos que saber. Vamos naquela direção.
_ Juntos? – perguntou Augustus achando um absurdo que alguém pudesse vê-los juntos.
_ Não tem outro caminho – explicou Gilberto. – Olhe para trás.
Augustus olhou e o lugar de onde ele viera não existia mais. O caminho seguia para frente exatamente de onde eles se encontravam. Ele se assustou, mas não quis demonstrar. Estavam no meio da escuridão e tudo que viam era um caminho vermelho que se estendia para a frente onde deveria haver fogo que iluminava um pouco mais depois da curva.
_ Vamos – concordou com Gilberto e seguiram a passos lentos, observando que o de ficava pra trás, deixava de existir a cada passo que davam.
Quanto mais andavam, mais se intensificava o cheiro que Gilberto reconheceu:
_ É cheiro de enxofre – disse. – Estamos no inferno?
_ Que inferno? – desdenhou Augustus. – Você acha mesmo que toda aquela baboseira que a gente escreve para agradar o público e vender livro existe? Daqui a pouco vamos encontrar o capeta? – ele riu alto.
_ Não sei quem vocês esperam ou não encontrar, mas não gosto que me chamem de “capeta”. Isso é uma palavra vulgar… – foram interrompidos por uma voz cavernosa e baixa, mas que os envolveu por completo.
_ Deus me livre – gritou Gilberto.
_ Nossa Senhora – gritou também Augustus.
_ Até parece que ambos acreditam em alguma coisa – o dono da poderosa voz riu. – Vocês dois são patéticos.
_ Quem é você? – ousou perguntar Gilberto.
_ Você ainda não sabe?
_ Onde estamos? – perguntou bravo Augustus.
_ Mas que coisa hilária! Vocês dois escrevem sobre mim e não acreditam no demônio? Escrevem cada coisa horripilante como se eu fosse a pior coisa que existe, mas não acreditam naquilo que escrevem – o demônio riu novamente.
Ele fez aparecer um salão igualmente vermelho onde puderam ver vários seres vermelhos que se moviam de um lado para o outro. Estavam todos nus. Todos andavam, iam e vinham sem perceber que eles dois estavam ali. Eles não tinham alternativa que seguir em frente. Tinham que seguir aquele bando de seres pelados e só aí se deram conta de que também estavam sem roupas. Gilberto tentou esconder a genitália do escritor concorrente, Augustus por sua vez, fez como se nada estivesse diferente e seguiu em frente. Onde eles iriam chegar?
O caminho parecia interminável. O calor era insuportável. O cheiro de enxofre era tão absurdamente intenso que começou a fazer com que eles tivessem lacrimejamento ocular. Algumas vezes esbarravam em outros seres vermelhos e sentiram a pele se queimar. A queimadura desaparecia assim como a dor rapidamente.
Um a um, aqueles seres vermelhos que os precediam foram desaparecendo, caiam em um buraco à frente ou nas laterais do caminho e restaram somente os dois em um enorme salão cheio de portas fechadas.
_ Vocês estão no inferno mesmo – voltou a dizer a voz grave. – O inferno que vocês tanto falaram em suas obras. Mas vocês erraram em algumas coisas.
Os dois nesse momento estavam quase abraçados com medo. Em todo lugar que olhavam viam fogo ou escuridão. Nada além daquele salão escuro e cheio de portas. Olhavam para as portas sem saber o que significavam.
_ Nós estamos mortos? – perguntou Gilberto.
_ Claro! – o demônio voltou a rir. – Não se lembram da explosão da lanchonete? Ainda bem que vocês resolveram se encontrar em um horário de pouquíssimo movimento e eu tive que mandar para o “céu” – ele marcou a palavra céu -, somente quatro funcionários que estavam lá na hora.
_ E por que não fomos para o céu também? – perguntou Augustus sempre o mais insolente.
O demônio riu alto e eles sentiram até uma vibração passar por seus corpos.
_ Vocês dois? No céu? – zombou o senhor do inferno. – Vocês dois são o que há de pior na humanidade. Tanto escritor bom, de grande talento, de uma sutileza fantástica para criar e quem faz sucesso? Dois sujeitos mesquinhos, maus, que não respeitam ninguém, que até mesmo os membros da família, para vocês não valem nada, acham mesmo que deveriam estar em outro lugar que não fosse aqui?
_ Mas… – balbuciou Gilberto.
_ Não tem o que questionar, Gilberto. Escolha uma porta – ordenou o demônio.
Gilberto foi arrastado por forças invisíveis e ficou de frente para três portas. Eram três portas de madeira de lei, escuras, polidas e exatamente iguais. Não havia um risco, uma mancha diferente entre as mesmas.
Gilberto sem saber o que escolher, optou pela porta à esquerda e foi sugado para dentro dela.
Voltaram a reinar o silêncio e o calor intenso naquele lugar onde Augustus estava sozinho. Uma luz vermelha se fez mais forte a direita do escritor e a voz do maligno voltou com carga total.
_ Agora é sua vez, Augustus. – Ele foi incisivo: – Escolha uma porta!
O autor mais velho e mais soberbo, apesar de toda sua postura de autossuficiente, também tremia nessa hora. Ele olhou para o lado contrário ao que foram oferecidas as portas para Gilberto e lá estavam outras três portas exatamente iguais uma às outras.
_ Eu quero a porta do meio – disse ele claramente.
No mesmo momento, ele foi sugado para o interior da porta do meio que se abriu para recebê-lo. A porta bateu se fechando e o lugar vermelho onde eles estavam, imediatamente, deixou de existir. O silêncio e a escuridão cobriram aquele lugar.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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