ENCONTRO NO INFERNO – CAPÍTULO 3 – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

ENCONTRO NO INFERNO – CAPÍTULO 3

Um mês mais tarde – claro que o tempo no inferno é diferente do tempo na terra, pra mais ou pra menos -, o demônio não estava satisfeito com sua empreitada. Tirara da terra dois seres soberbos, mas o fato de terem morrido, fez com que a obra de ambos disputasse o primeiro lugar em vários países. Isso não era bom. Resolveu então, o chefe dos desgraçados, o mal em pessoa, aquele que ninguém quer ver, procurar pelos dois escritores presos em suas escolhas. Augustus e Gilberto deveriam ter alguma novidade na nova vida, ou seria na nova morte.
Entrou na sala onde estava Augustus. O escritor que tinha sessenta e cinco anos na data da sua morte estava andando de um lado para o outro entre prensas e muitos rolos de papel. Andava de um lado para o outro e voltava do outro para o início de sua caminhada e fazia esse trajeto vinte e quatro horas – Ops! no inferno seriam horas? – ininterruptamente. Não se importava com sua nudez, não se importava com o calor e as labaredas que vez ou outra queimava seu corpo. Andava, andava e andava. Não achava solução para o que o preocupava. Não se deu conta do senhor das trevas que entrou na sala sem paredes que o prendia. Tentava se lembrar de uma frase que criava e em dez segundos a frase embaralhava na sua mente e ele não conseguia escrever uma palavra. Tinha em mãos papel, tinta, impressora, uma gráfica, era enfim, dono de uma editora só para ele e não conseguia escrever uma linha. Sua mente estava vazia e era esvaziada a cada pensamento. Ele não era capaz de escrever, de formar, de falar uma frase inteira. Olhou para a esquerda e viu o demônio. Sorriu, talvez não se lembrasse de quem era aquela cara vermelha e rude que o encarava com olhos faiscantes que transformaram a sua editora em uma chama viva.
_ Quem é você? – ousou perguntar.
_ Quem é você? – perguntou o maligno com sua voz cavernosa e grave.
_ Eu sou Augustus Nigrus, o maior escritor de todos os tempos – respondeu ele solenemente com a mão no peito.
_ Eu sei. Você é que não sabe de nada. O fato de não saber, alivia a sua dor e não é isso que eu quero – a voz do senhor dos infernos rebombou em todos os cantos da sala sem paredes e sem cantos. Parecia que a voz invadiu o universo.
Augustus se assustou com a força daquele ser e começou a se lembrar de tudo. A vida na terra, os livros publicados, a sua fama e seu sucesso em cima de uma literatura que não escrevia sozinho. Ele tinha uma equipe que o auxiliava na elaboração de todos os best sellers que havia criado. Era uma pessoa para lhe dar o assunto, outra para escrever os textos, outro criava os personagens e outro o ambiente onde se passava a história. Ele tinha muito dinheiro e com isso, conseguia ficar mais rico ainda com seus livros que na realidade não eram totalmente escritos por ele. Ele “escrevia” o que o mercado queria comprar e a sua equipe de marketing e divulgação fazia a obra estourar no mercado nacional e estrangeiro.
Ele olhou em volta. Papeis e tintas e máquinas e impressoras e tudo aquilo que ele poderia supor para fazer um livro estava ali ao seu alcance e ele não conseguia escrever uma linha sequer. Ele não conseguia elaborar um enredo e ele precisava dos outros auxiliares que não estavam com ele. Esse era o inferno de sua existência. Ele ali deixava de ser o grande autor para ser ninguém. Ele sabia quem foi antes da explosão e sabia quem era nesse momento. Ele entrou em desespero e começou a andar mais depressa, e a falar mais alto, e a tentar se lembrar da frase que falou e esquecia a primeira palavra. Ora se queimava em alguma chama que aparecia ao lado, ora era impedido de caminhar por algum ser demoníaco que vinha ao seu encontro e ao esbarrar em seu corpo também queimava. As queimaduras doíam, mas cicatrizavam rapidamente e novas queimaduras lhe eram impingidas. Ele olhou para o demônio que o observava de longe e chorou. Era um choro mais de decepção que de arrependimento. Ele sabia que se pudesse faria tudo igual novamente.
O demônio se afastou daquela sala e Augustus continuou andando e falando sozinho. Ele parecia um louco. Ele estava louco. Pena que a sua loucura não tirava dele a dor de ter perdido tudo que construíra na terra. Por quanto tempo ele ficaria ali? Ele decidiu que ficaria naquele espaço sem limites, sem teto e sem chão, sem paredes e sem cadeados até conseguir escrever um livro melhor que Gilberto Lara. Pensou no outro escritor e grunhiu com raiva e com dor pela queimadura no braço esquerdo por ter se esbarrado em alguém.
A sala onde o demônio entrou em busca do outro escritor era igualmente etérea. Não havia espaço delimitado para nada e lá dentro estava Gilberto Lara. O escritor que ao morrer estava com cinquenta e oito anos, continuava nu e já não se importava de esconder o corpo. Estava em um vazio completo. Não havia nada ao seu redor. Ele estava com os olhos injetados de sangue e as mãos tremiam. Ele havia nesse tempo que estava ali, criado inúmeras histórias e as repetia incessantemente para não se esquecer de nada. Não havia como escrever, não havia como gravar, não havia nada a não ser ele e sua mente prodigiosa que criava incessantemente. Ele repetia e repetia e representava a cena que criara. Queria escrever aquilo tão logo pudesse e não poderia se distrair conversando outra coisa que não fosse a sua história. Parou e olhou para a sua direita onde o grande ser vermelho de longas orelhas e olhos incandescentes, entrou. Pensou que fosse um de seus personagens e ficou feliz de poder estar criando a sua história ao vivo já que não podia escrever. Viu que não era um personagem. Lembrou-se na hora do que lhe aconteceu. Lembrou-se que estava com Augustus Nigrus em uma lanchonete e se lembrou da explosão. Sabia que a explosão de gás foi provocada pelo próprio ser que agora o observava. Ele não era seu personagem, mas agora ele, Gilberto, era o personagem do senhor das trevas. Encarou o maligno e perguntou:
_ O que quer aqui?
_ Ver como você está se saindo – respondeu o demônio.
_ Eu estou muito bem. Já escrevi três livros ótimos desde que aqui cheguei. Só falta escrever, editar, imprimir e fazer sucesso com mais um livro – respondeu ele soberbamente.
_ Escreva! – ordenou a voz.
_ Onde? Com o quê?
_ Escreva com o seu sangue – sugeriu o demônio rindo alto.
Gilberto começou a ver que nada do que ele criara ali sairia daquele lugar. Estava tudo se perdendo e ele não era mais ninguém. Ele que fora um escritor que tanto lutou para fazer sucesso, chegou a comprar contos e personagens de amigos que não tinham dinheiro para publicar. Pagou menos do que devia e publicou em seu nome. Ele também era um farsante que fez sucesso com o trabalho dos outros. Ele queria escrever agora. Sabia como fazer e não conseguiria escrever com o sangue que não tinha em nenhum lugar material que também não estava presente na sua loucura. Ele decidiu-se por recitar o texto que imaginou por último até a sua exaustão enquanto esperava descobrir como enviar para a sua editora que, à essa hora, já escolhera outro autor para ser o seu carro forte. Ele falaria e falaria e tentaria não se esquecer andando de um lado para o outro por séculos infindáveis.
O demônio, senhor de todo o mal, se afastou de ambos deixando que no mesmo espaço sem que um visse o outro, um imaginando estar em uma editora e não tendo o que escrever e o outro escrevendo na mente e não conseguindo materializar suas palavras eternamente. Algumas vezes um passava pelo outro e não se reconheciam, acreditavam que eram outros seres demoníacos e se queimavam um no outro. O contato dos dois causava dor e eles apesar de tão perto nunca mais se veriam. Nunca mais produziriam nada e nunca mais sairiam daquele inferno
O Demônio deixou-os esquecidos e saiu em busca de outros seres perdidos que lhe pertenciam pelo mal que espalharam em vida, ou pelas vidas que ceifaram, ou por qualquer ato que pudesse causar dor e sofrimento a outros seres humanos. Ele não incentivava a ninguém cometer esses atos, mas também não deixava de anotar cada coisa errada.
Uma labareda grande se formou e no mesmo instante, nada mais se via naquele lugar.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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