FELIZ – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

FELIZ

Aí, depois de sair com a namorada, depois de conversar com vários amigos que eles receberam em sua mesa predileta, no seu bar predileto, com seu garçom predileto, ele foi a outro bar em busca de outros assuntos e outras conversas…

Achou o que queria, conversou sobre milhões de coisas diferentes – um rapaz chegou eia  cantou, ele não topou – falou dos amigos, com os amigos, cantou com os cantores, fez a festa sozinho…

E, ao subir o morro para casa isso o incomodou: sozinho!

Sempre estivera sozinho em tudo o que fizera, sempre se deitara sozinho, sempre comera sozinho, sempre tivera que resolver seus problemas sozinho, sempre, sempre, sempre sozinho!

Doía-lhe aquela situação, aquela imagem de ser só – um espectro de vida andando nas noites sem rumo, sem ninguém. Se fosse ainda um vampiro, se fosse um poderoso senhor das trevas, da noite, do inimaginável… mas ele era humano! Sentia o frio que atravessava a calça fina, porque ele se esquecera de vestir outra mais quente, a escuridão que penetrava cada poro, cada coisa quente e viva sua, cada vento fino que lhe queimava os lábios, e ele ali, subindo  o caminho de casa, contando com a escalada da vida, sem ninguém, sem um bafejo qualquer que o incentivasse a ir em frente.

O que o esperava em casa? O cobertor, o lençol por baixo, o calor só conseguido, só alcançado na manhã quando o sol aparecesse sem culpa, coitado, mas que mostrasse a todos que era hora de partir para luta, para o trabalho, para os afazeres do dia-a-dia…

Ele subiu o morro do seu bairro, bairro do centro, bairro elegante, bairro no morro, com a sensação de que o dia fora mais uma vez perdido. Queria estar em casa o mais rápido possível. Queria ir para sua janela, ouvir música, chorar um pouco, chorar muito, chorar só…

Não sabia ao certo porque estava tão triste, jogava a culpa no fato de estar só. Talvez. Estava só como ninguém poderia estar, estava só como somente ele poderia ter querido estar e não suportava o silêncio, a solidão, a dor cruel dos sós, dos abandonados – não era esse o seu caso, mas se sentia assim – dos não queridos…

Precisava sofre, precisava chorar, mas nada disso acontecia. Lembrou-se então da namorada, dos amigos afins, das pessoas que conhecia e deitou-se só e dormiu feliz!…

 

Maloca Querida, 1998: 17-9.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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