JÁ PASSOU – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

JÁ PASSOU

“Já passou, já passou
Se você quer saber,
Eu já sarei, já curou
Me pegou de mal jeito
Mas não foi nada, estancou…”1

Assim como na música do Chico Buarque, as coisas passam. O mal que tanto mal nos faz, passa. O sofrimento, a dor intensa, passam. O desespero, o desengano, a perda passam. Um dia, passam. Um dia passa tudo.
Sobra a cicatriz daquela grande ferida! Sobram as mágoas, os ressentimentos, a frustração…
Enfim, sofrer é inerente ao ser humano e a gente sofre porque é bobo. A gente sofre porque ama, porque espera que o outro nos ame também. A gente sofre porque procura no outro aquilo que idealizamos, mas que não é o que a pessoa realmente é. Não sofremos porque nosso inimigo ou um desconhecido se foi. Normalmente, quem mais nos fere são as pessoas que temos por perto, são aquelas que nos são caras e a quem devotamos nosso imenso amor.
O amor também passa! E iludida é aquela pessoa que imagina e crê em um amor eterno. O amor acaba. Fica a afeição, o carinho, o compromisso, mas se não houve uma chama para fazer com que esse amor se renove a cada dia, ele morre.
“Já passou, já passou…”
Uma vez, um antigo professor2 me disse que “a desgraça do presente é a risada do futuro”. O que ele quis dizer é que com o tempo, até aquela chaga mais profunda – depois que se torna uma cicatriz – permite que consigamos sorrir e até mesmo dar risadas daquele momento de grande infortúnio.
Será? Não sei!
Não sei se aquilo que nos machucou, nos feriu no passado possa ser tratado hoje como algo sem importância. Não teria relevância alguma, não seria realmente importante se dele nos tivéssemos realmente esquecido e não fizesse mais parte do nosso cardápio de coisas e fatos que gostamos de relembrar. “Hoje eu não o amo mais, mas quando éramos… ou quando fomos… quando estivemos”… Se lembra a ponto de falar, ainda é importante e ainda incomoda.
Um fato pelo qual passamos com grande dificuldade, uma situação difícil, só vai nos permitir sorrir, quando acabar. A falta de dinheiro, a compra de um imóvel, a mudança de casa, de cidade, de vida… o que pode acontecer conosco ao longo de nossa existência tão curta?
A vida é curta e nós nos preocupamos demais com bobagens que fazemos com que cresçam enormemente e se transformem nos monstros que vão nos devorar. Nós criamos os nossos pesadelos, fomentamos o nosso sofrimento e depois nos afundamos no pântano mal-cheiroso da nossa criação.
Deixemos de buscar nos outros o que não existe, deixemos de sofrer com situações que não nos fazem bem, deixemos de esperar que alguém seja o culpado do nosso insucesso, do nosso desamor, da nossa solidão.
A felicidade está dentro de cada um de nós quando a deixamos fluir e não devemos esperar de ninguém nada que possa nos fazer felizes. A felicidade não depende de ninguém exceto nós mesmos. E garanto: até ela – a felicidade – um dia, vai passar!

1- Já passou – música e letra de Chico Buarque – 1980
2- Professor Antônio Martins – disciplina Ginecologia – Faculdade de Medicina – UFJF

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

2 comentáriosDeixe um comentário

  • Eita sô. Faz a gente amar até a realidade triste! Realmente tudo passa. Passa a vida e a gente com ela. Que seja cada momento vivido na intensidade do querer, do melhor fazer; pois quando passar, que não reste apenas saudade, mas conforto. Abraços mago da noite

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