Jão e sua famia – conto em minerês – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

Jão e sua famia – conto em minerês

Ceis nem magina que qu’ô vô contá. É uma história di ficá muito sustado. Conteceu lá na roça tem poucos dia.

 

El gostava de ‘cordá cedo. Naquele dia, inda nem o sol pareceu no céu e lá estava ele, sentado na porta di casa, picano o fumo de rolo na mão pra fazê um pito, era o mió pito do dia. Nem bem lavava a cara e já ‘tava el lá, oiando o céu, veno os passo vuano, as maritaca tudo gritano como si ‘tivesse numa cunversa di cumadre. Jão pensava que elas divia de tê uma prosa muito das boa pra falá tanto.

De repente el sintiu o mais importante chero do dia: Maria sua muié cuava no cuadô feito de pano de gudão o café que el mesmo coiera na roça semanpassada di tarde. A roça tava dano muita produção.

Jão vivia ali com os dois fio, que já era homi feito e trabaiava na roça com ele. Jão casô com Maria ela inda era moça virge di tudo, nem tinha tido nenhum namorado antes. A sogra, uma cobra venenosa, num gostava dele, mas pra ficá livre da fia preferiu que ela casasse com ele. Jão era lavradô, seguino os passo do pai. Dono de terra era bão partido.

Jão entrou em casa e uma caneca de ismalti verde que nem bacate tava esperano por ele pra tomá seu café quentim antis de í pra roça. Os fio já tava sentado na mesa comeno o pão de antionti que tava mais duro que os casco do boi Geronço. Jão gostava de vê os fio crescido. Dois homi feito e barbado. Daqui a pouco els emprenha uma muié aí e tem que casá. Ainda bem que es é home e traz a muié pra casa. Jão num vai perdê a mão de obra dos fio.

Maria apressa os homi pro trabaio. Ficô na porta e laía os homi. Ela quiria mesmo era ficá suzinha. Tava de saco cheio do marido e dos fio que era tudo farinha do mes saco. Era tudo uns merda. Ela nunca gostô do marido mes. Que tava fazeno ali té hoje, num sabia.

O dia correu como todo dia sem nada de nuvidade. O sol arribô no céu, cumeçô a descê e daqui a pouco, ela sabia, os homi vortava da roça tudo sujo e fedeno a homi sem banho. Cambada de porco, pensou ela. A ojeriza subiu nos peito de Maria e ela até pensô di suicidá. Bobage, muié, pensô ela. Os ruim era es. Ela se ficasse livre desses homi fedorento era mais feliz. Ela tinha é que matá es. Ficá livre pra podê vivê em paz.

Os homi chegaro, como ela pensô, tudo fedeno a terra, suor e porquera. Que vida! Jão foi logo tomá uma pinga e despois que virô o arco guela abaixo arrotô igual um capado pronto pro abate.

Maria sorriu, era um sorriso de glória. Pediu licença pra virge Maria e botô a cumida na mesa. Os homi sentaro de quarqué jeito e derrubaro no prato o feijão maiado que Maria fez, arroiz e farinha. Jão comeu como todo dia, mastigano c’a boca aberta, deixano cair na mesa e nos peito resto di comida. Os fio fazia igual e todos ria e contava as coisa da roça. Ninguém olhava pra muié que parada perto do fogão de lenha só esperava.

Jão, quem mais cumeu, foi o primero a tussí. Uma tosse longa, um engasgo horríve que assustô os fio que nem pudero socorrê o pai. Cumeçaro tudo a tussí tamém e em poco tempo caíro no chão com dor de barriga e gritano por socorro. Maria continuô oiando e sorrino. Observô cada um des í morreno e esticano as bota. Despois que pararo de respirá, Maria arrumô a mesa e se serviu de duas conchada de fejão que cozinhô para a famia com umas foinha de comigo-ninguém-pode.

Enquanto comia, sorriu, riu e de repente gritô alto, caino no chão. Enquanto esperava a morte, deu a mão a Jão e fechô os oio.

Três dia despois, acharo a famia morta, apodreceno na cozinha da casa.

 

Imagem: Caipira picando fumo – Almeida Junior

Ficha técnica
Ano: 1893
Dimensões: 202 x 141 cm
Técnica: óleo sobre tela
Localização: Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

2 comentáriosDeixe um comentário

  • Artur: vc andou se inspirando no chumbo derretido no ouvido que a personagem do Guinaràes Rosa se vinga? Eita ferro!!! Com comigo ninguém pode tem mais charme!!! Esses mineiros que comem quietos!!! Eis tudu qué sabê cô co faço pra arresovê u probrema… i resorvi… Parabéns, chefe!

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