MARIA ALICE E JOÃO CARLOS – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

MARIA ALICE E JOÃO CARLOS

Maria Alice saiu de casa às vinte horas em ponto. Queria estar no centro da cidade antes que os amigos chegassem ao lugar onde combinaram de se encontrar. Vestida de preto da cabeça aos pés, a ruiva deixou os cabelos longos e lisos soltos nas costas. Portadora de grandes olhos azuis de uma sagacidade imensa, ela estava radiante naquela noite.
Encontrar-se com os amigos que há anos não via era ao mesmo tempo um prazer e um grande medo.
Maria Alice, nesses quatro anos de afastamento dos amigos, tornou-se uma mulher diferente. Estava mais pálida que antes, mas agora não podia mais tomar sol, não podia sair à luz do dia e com isso sua pele estava mais clara e mais bonita.
Depois de quatro anos, ela se acostumou a ser um ser da noite. Ela se acostumou a ser como Douglas que foi o responsável por sua transformação. Ela era vampira. Estava preocupada de, ao se encontrar com os amigos, ser descoberta. Não queria deixar de se encontrar com seus melhores amigos de faculdade e Douglas lhe disse que ela poderia ir. Disse-lhe que ela era uma vampira consciente e responsável.
Estava bem alimentada quando saiu da escuridão de sua casa e tomou as ruas de Juiz de Fora. Marcaram encontro no Restaurante e Bar Poleiro do Galo. Ela gostava do restaurante antes de ser vampira. Ela gostava de tomar cerveja gelada e comer a picanha inigualável do lugar. Depois disso, não voltou mais lá. Hoje seria sua experiência. Será que sentiria o mesmo prazer de tomar cerveja? Tudo nela estava alterado para mais. Tudo era mais intenso. Alimentava-se também de comida humana, mas em pouca quantidade. Gostava de vinho tinto e vodca. Podia beber como nunca antes na vida e nunca ficava alterada.
Chegou ao bar e esperou um pouco. Não tardou muito e chegou João Carlos. O rapaz que já havia namorado com ela no passado estava diferente. Estava maior que antes. Maria Alice observou que ele cresceu e estava com a musculatura bem mais desenvolvida. Estava lindo, pensou ela. O cabelo curto com corte militar dava ao rapaz moreno uma masculinidade ímpar. Ele a viu e se dirigiu a ela.
_ Maria Alice, como você está linda!
_ Muito obrigada, João. Você também está muito bonito – ela sorriu exibindo os dentes muito brancos.
_ Acho que é o tempo que você não me vê, Maria Alice – disse o rapaz. – Continuo o mesmo.
_ Olá, vocês dois – cumprimentou Marcelo chegando. – Como vão vocês? – perguntou beijando ambos nas faces.
_ Estou bem – respondeu João Carlos. – E você?
_ Eu estou muito bem – respondeu o recém-chegado. Você está muito bonita, Maria Alice.
_ Como disse o João – sorriu ela, – deve ser o tempo que você não me vê. Continuo a mesma.
_ Eu acho que vocês dois estão muito bem – observou Marcelo. – Parecem outra pessoa.
Riram e foram interrompidos por Jacqueline e Alfredo que chegaram.
Jacqueline, como sempre, estava vestida para uma festa de gala. Usava um vestido fino e esvoaçante de seda azul claro que contrastava com sua pele negra. Era uma negra linda, alta, de grandes olhos pretos e era também a mais inteligente da sala. Era ela quem carregava a turma toda.
Alfredo, no entanto, parecia congesto. O rapaz de vinte e oito anos parecia que dormira esses quatro anos dentro de um tonel de cachaça. Estava acabado.
O encontro seria entre eles cinco para poderem discutir o encontro maior em comemoração aos cinco anos de formatura. Entraram no bar e somente Jacqueline não quis tomar cerveja. Preferiu um suco de laranja com gelo.
Ao primeiro gole, a bebida loira encheu a boca e desceu pelo esôfago da ruiva lhe dando muito prazer. Encheu novamente o copo e João Carlos observou:
_ Tá com sede, hem, Maria Alice?
_ Estou sim. Mas essa cerveja está fantástica – observou ela
_ Está mesmo – concordou Marcelo.
Os cinco amigos pediram uma picanha, arroz e farofa. O prato não iria demorar e por isso mesmo resolveram não perder tempo e começaram logo a ver o que o outro pensou antes do encontro.
Decidiram fazer uma festa grande, afinal a turma tinha oitenta e cinco alunos.
_ Morreu alguém? – perguntou Marcelo se referindo à turma.
_ Não que eu saiba – respondeu João Carlos.
_ Morreram sim – respondeu Maria Alice. – Cinco de nós já passaram pro outro lado.
_ Então faremos uma festa para oitenta pessoas – concluiu Jacqueline que além de animada era dona de Buffet.
_ Vai ser muito bom – falou Alfredo parecendo que não estava presente.
Os amigos pararam a discussão para comerem a melhor picanha do momento e pediram mais cerveja.
Tarde da noite, João Carlos se ofereceu para levar Maria Alice em casa. Ela estava a pé, mas não se importava com isso. Já que o lindo atleta se ofereceu de levá-la, ela aceitou agradecida.
Os amigos saíram do bar e restaurante com a festa mais ou menos estruturada e marcaram de se encontrar novamente em duas semanas.
João Carlos parou o carro em frente à casa de Maria Alice e ela lhe agradeceu sem fazer menção de sair. Queria aquele homem para si. Convidou o amigo para entrar em casa para uma última cerveja e o rapaz arregalando os olhos verdes, sorriu iluminando o rosto lindo.
Fechou o carro e a acompanhou para dentro do prédio. Maria Alice ia à frente com os olhos vermelhos e um par de presas que insistia em se mostrar em seus lábios. Ao fechar o portão ambos ouviram um uivo ao longe. João Carlos sorriu com o som que estava tão acostumado.
Ao entrar no apartamento, Maria Alice com os olhos azuis angelicais perguntou ao amigo:
_ Onde você esteve nesse tempo todo que a gente não se viu?
_ Estudando, trabalhando – ele sorriu e iluminou o rosto novamente.
_ Eu também – mentiu ela. – Vamos tomar mais cerveja? Ou você prefere outra coisa?
_ Alguma sugestão? – brincou ele se aproximando e sentindo o perfume que ela exalava. Patchouli sempre foi o perfume que ele mais gostava.
Ela se aproximou mais e o abraçou oferecendo os lábios para um beijo. Ele a beijou e enquanto sentia um frenesi que se espalhava por seu corpo voltou a ouvir uivos de lobos ao longe. Pareciam mais insistentes.
_ Vou apagar a luz da sala – disse ela se afastando um pouco, mas sendo logo abraçada novamente por aqueles braços musculosos. Ela estava excitada e seus olhos mudaram de cor. Em pouco tempo encheu a saia de luz vermelha e João Carlos se assustou com o brilho dos olhos da amiga e o par de presas que ela ostentava na boca. Ela queria fazer sexo com ele, ela queria tomar do sangue dele e o rapaz se afastou dela e lhe disse:
_ Você não pode fazer isso comigo – ele estava tranquilo.
_ Eu quero você – respondeu ela olhando nos olhos verdes do rapaz e percebendo que eles também mudavam de cor.
Ao ver os olhos amarelos do lupino à sua frente, Maria Alice recuou. Ela sabia.que o sangue de lobisomem era letal para um vampiro e o mesmo se daria com o lobo que sorvesse o sangue do bebedor de sangue. Ambos se encarando. Ambos se querendo. Ambos excitados e cheios de desejo carnal. Ele a olhava através de seus olhos amarelos, ela o via todo vermelho. Um silêncio sepulcral se seguiu, cada um encarando o que poderia ser seu oponente e não se moviam. Uivos ao longe de lobos preocupados com o irmão mais novo à frente da vampira quebraram o silêncio. João Carlos sorriu. Ela olhou, assustada aquele sorriso e acabou por também sorrir. Eram amigos. Eram seres da noite. Cada um seguiu seu caminho e cada um tinha poderes e fraquezas. Os olhos dela voltaram ao azul mais profundo que os olhos verdes dele já viram e os dois se abraçaram. O calor do corpo de um completava o outro. Eles queriam sexo. Eles precisavam ter um dentro da outra e não seria a natureza de suas maldições que os separaram. Não podiam tomar o sangue do outro.
João Carlos saiu do apartamento de Maria Alice antes do raiar do dia porque a amante da noite precisava se esconder do sol. Em breve voltariam a se ver.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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