METADE – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

METADE

O confinamento me ensinou que eu posso viver sem muita coisa que tenho – isso se aplica a todos. Com o fato de ficar em casa, pude observar que, no meu dia-a-dia normal, eu consigo viver com um terço das camisas que eu tenho; um décimo – talvez menos – das meias que tenho; a quarta parte de todas as cuecas que eu tenho; pijama eu nem vou falar porque eu detesto pijama; viveria bem com apenas dois pares de sapatos – devo ter muitos mais; dois pares de tênis; dois pares de chinelo – e já é ostentação. Se eu for pensar nas minhas blusas de frio – eu que adoro frio e quase não fico de blusa no Brasil -, talvez pudesse trocar o guarda-roupa por um que fosse metade do tamanho. Eu tenho muita roupa? Talvez! Eu tenho blusa de tricô que minha mãe teceu pra mim e eu deveria estar entrando na faculdade – quarenta anos – e está perfeita. Tenho roupas que comprei há mais de vinte anos e estão como novas e há aquelas que têm vinte anos e nem foram usadas. O que faz com que eu tenha então muita roupa é cuidado com o que eu tenho e eu não me desfaço de uma camisa porque cansei de usá-la. Eu gosto de meias coloridas – ganho um monte dos parentes e dos amigos e gostaria de ganhar muitas outras. É um presente fácil que me agrada muito! Poderia viver sem? Sim. Mas é bom variar de meia. Combinar a meia com a cueca. Mostrar a meia, nem sempre a cueca.
Adoro terno, gravata, sobretudo e echarpes e cachecóis. Para morar no Brasil? Tenho, mas não consigo usar com frequência. É calor demais.
Com o confinamento, todos nós percebemos que podemos viver com muito, mas muito menos do que temos.
E não só em roupas! De jeito algum. Isso se estende a tudo, claro.
Menos a livros! Tenho muitos livros, li durante toda minha vida muito, dos que eu tenho, li a maioria e gostaria de ter todos os livros do mundo.
Eu, quando era criança, tinha um medo absurdo de que, quando fosse adulto, não tivesse um vasto conhecimento geral. Posso afirmar com toda força do meu coração que eu tenho um bom conhecimento de quase tudo. Adoro isso! E essa parte de mim que tenho muito, eu não conseguiria reduzir. Não consigo viver sem o meu conhecimento de tudo um pouco, sem o meu saber das coisas que me esforcei para aprender e saber bem e sem minha capacidade de criar.
Talvez até essa ideia de que eu precise da metade do que tenho não seja do vírus, mas da idade. E olha idade também eu ficaria feliz de diminuir pela metade!

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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