MINHA QUERIDA FILHA-IRMÃ – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

MINHA QUERIDA FILHA-IRMÃ

Minha querida filha-irmã,
Hoje você se foi. Eu tentei de tudo, mas você não me escutou.
Você sempre me chamou de pai-irmão. E eu sempre me senti responsável por você. Desde que você chegou na minha vida, você deveria ter quase dois anos, eu tinha oito, eu me senti responsável por você. Eu escolhi seu nome. Eu defini que você deveria se chamar Tania. E o tempo passou. A gente se deu muito bem, a gente brigou, a gente se ama.
A vida era linda, até que uma pessoa maldosa contou para você que você foi adotada. E, ao contrário de amar quem a adotou, você começou a criar o seu próprio inferno: ninguém me ama! E nós amamos você. As revoltas, as brigas com nossos pais, a vontade de sair de casa, casando-se cedo demais. Você não quis estudar como eu fiz. Teria feito muita coisa linda porque você sempre foi uma pessoa com uma capacidade fenomenal! Mas você não quis. E eu fui embora. Eu fui para Juiz de Fora estudar e por lá fiquei. Achei, minha filha-irmã, que tudo estava bem. Nunca esteve bem! Você se casou cedo! Milhões de razões, nós dois sabemos, mas você se casou por amor. E amou até hoje e amará para sempre o seu primeiro amor. E como já era infeliz, continuou infeliz depois que se separou. A vida virou uma merda com a separação e com os pais radicais e preconceituosos que tínhamos. Você era ‘largada do marido”. Sua filha foi aceita no lar, mas ou você não quis voltar ou não foi aceita. Eu estava longe, cuidando da minha vida.
Mas eu te apoiava. Apoiava todas as loucuras que você fazia e que me contava. Apoiava quando você me dizia verdades e em todas as suas mentiras. Eu sempre soube que você me contava uma mentira, mas não brigava com você. Você me contou de suas novas investidas no amor e eu apoiei. Na segunda gravidez, eu fui um dos primeiros a saber e apoiei. Do certo, do errado, eu apoiei. De tudo que você quis e deixou de querer, eu apoiei. Cirurgia – apoiei. Outras cirurgias – apoiei. O que eu soube, eu apoiei. Mas teve o que eu não soube. Teve a quantidade imensa de mentiras que você me contou, achando que eu acreditei.
Meu Deus, minha filha-irmã, que problema sério tivemos: você se acabou! Fez tudo errado! Quanta gente ama você, que bom saber. Apesar de você ser essa pessoa difícil, ranzinza, brigona, muita gente está dizendo que ama você.
Eu amo você! Putz! Que merda! Você me fez até dizer palavrão.
Eu tentei. Você sabe que eu tentei! Há anos venho brigando com você para que “Vá ao médico”, “faça exames”, “cuide-se”. Juro que tentei salvar você! Que pessoa difícil você se tornou, minha filha-irmã. Como você se tornou arredia e auto-suficiente. Quem sabia mais? Ninguém! Quem era melhor? Ninguém!
Hoje, você me deixou! Fechou os olhos para a vida terrena e, eu espero, encontre paz e alegria no mundo espiritual. Quero muito que você seja feliz, mesmo no outro lado, mesmo na próxima encarnação.
Amo você, minha filha-irmã!
Vá com Deus!

         

Sobre o autor Ver todas as postagens

Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

14 comentáriosDeixe um comentário

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados *