MORTE NA RUA BRÁS BERNARDINO – 2º CAPÍTULO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

MORTE NA RUA BRÁS BERNARDINO – 2º CAPÍTULO

O Dr. Paulo Mascarenhas entrou na sala do Tenente Gilberto quase na hora do almoço. O militar estudou tudo o que viu e ouviu na madrugada e tomou toda a garrafa térmica de café. Estava refeito. Não havia dormido, mas acreditava que dormir era coisa para os fracos.
O relato do legista dizia que Fátima foi estrangulada no apartamento por volta de duas horas da madrugada. Havia lesão traqueal e petéquias oculares. Ela não havia agredido o assassino e não tinha nenhuma pista do agressor. Praticou sexo consensual, mas com provável preservativo não tinha material para exame. O copo e os cigarros fumados pela outra pessoa tinha DNA e ele estava esperando o resultado.
_ Será que a noite de amor terminou em briga? – sugeriu o médico.
_ Pode ser – respondeu o tenente. – Muitas vezes as brigas ocorrem depois da fúria do desejo ser aplacada – ele riu. – Estou até parecendo poeta.
_ A gente não entende as pessoas mesmo, Tenente – desabafou o médico. – É tão mais fácil viver em paz.
_ Com certeza, meu caro – concluiu o militar.
Gilberto ficou novamente sozinho na sua sala pensando e acrescentando dados a tudo que já sabia. A vítima tivera um encontro, fez sexo – haja vista o sofá todo desarrumado -, comeu pizza, tomou vinho, fumou e brigou. Pode até não ter sido nessa ordem, mas a briga foi o ponto final no que deveria ter sido uma noite romântica. Quem estava com ela?
O primeiro a chegar para dar seu depoimento foi o porteiro Geraldo Elias da Silva de cinquenta e oito anos, negro, magro, mas com uma barriga proeminente.
_ O senhor trabalha há quanto tempo no prédio, seu Geraldo? – perguntou o tenente.
_ Há mais de vinte ano, senhor – respondeu o simpático porteiro.
_ Então conhece todo mundo que mora ali?
_ Ih, seu Tenente, o povo ali vai e volta. É muito estudante e troca quase todo ano uma boa parte.
_ O senhor conhecia bem a vítima? – perguntou Gilberto.
_ Conhecia sim, senhor – respondeu ele. – Ela era uma moça muito boa. Muito educada ela. Ela sempre me cumprimentava – ele se empertigou na cadeira como se isso fosse realmente importante.
_ Muito bom, Geraldo. Eu conheço tanta gente mal educada que não cumprimenta ninguém – Gilberto incitou o porteiro a continuar falando.
_ Ela morava no prédio há cinco anos – Geraldo explicou. – Nunca vi ela fazer nada de errado. Moça quieta.
_ Ela tinha alguém? – perguntou Gilberto. – Um namorado? Amigos que a visitavam?
_ Não que eu saiba – foi categórico o porteiro.
_ Alguém a visitou noite passada? – perguntou o militar.
_ Não entrou ninguém no prédio diferente ontem, Tenente.
_ Ninguém? – reforçou a pergunta.
_ Ninguém – afirmou com segurança o gentil homem.
_ Você pode ter dado uma saída pra ir ao banheiro, fumar…
_ Não, senhor. Eu não fumo com a graça de Deus. Sou evangélico, senhor – disse ele com satisfação. – E quando eu saio da portaria, ninguém consegue entrar, ninguém tem chave da frente.
_ E sair? – Gilberto pensou em outra possibilidade.
_ Se alguém abrisse o portão eu ouviria o barulho e teria tempo de ver quem era. Ninguém saiu – afirmou o porteiro.
_ Então estamos com a possibilidade única de quem a matou ser alguém que estava dentro do prédio na noite passada.
_ Nosso Deus! – benzeu-se o porteiro.
_ Vamos descobrir, Geraldo. Não comente com ninguém essa nossa conversa.
O porteiro saiu e Gilberto voltou às suas anotações. Fátima não tinha ninguém que o porteiro conhecesse. Ela não era, no entanto, uma mulher sozinha. Ele iria descobrir com o DNA quem esteve com ela. Será a mesma pessoa? Amante e assassino? Seriam duas pessoas? Quantas pessoas estariam envolvidas naquele crime?
Pela sua lista, ele poderia eliminar o casal Moraes do apartamento seiscentos e seis, Maria do Carmo de oitenta e cinco anos e o marido António José Moraes de oitenta e nove e restrito ao leito. A acompanhante, Geralda Maria da Silva era outra mulher que não teria forças para jogar a vítima pela janela. Ele poderia eliminar a mãe de Sueli Mattos do apartamento duzentos e seis, outra idosa sem forças para cometer o crime. A filha ainda estava na lista de suspeitos.
Não havia mais ninguém que pudesse ser descartado. Restavam então, dezessete pessoas que teriam força para matar e jogar o corpo pela janela. Gilberto também não entendia ainda: Porque, se a vítima estava morta, jogar pela janela. E como poderia o apartamento estar fechado por dentro? Quem entrou tinha a chave? Pensou ele. As chaves de Fátima estavam todas em seu molho sobre a mesinha do telefone. Ela ainda tinha telefone fixo, apesar de usar em noventa por cento das vezes o celular. Quem matou a funcionária da prefeitura de 26 anos? Por que matou?

            

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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