MORTE NA RUA BRÁS BERNARDINO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

MORTE NA RUA BRÁS BERNARDINO

PRIMEIRO CAPÍTULO

Nenhum grito, apenas o baque surdo do corpo sobre o capô do carro estacionado na Rua Brás Bernardino. O alarme do carro disparou e dois porteiros correram às portas dos prédios para ver o que estava acontecendo. O susto grande, Clerison parou estático e foi Geraldo Elias quem se aproximou da mulher de vinte e seis anos que ainda sangrava, mas já estava morta.
Nesse momento, várias luzes se acenderam nos prédios que compõem o lado esquerdo da rua e que são todos quase com exclusividade, moradia de estudantes.
Pela posição do corpo, ao chegar, o Tenente Gilberto achou que ela caiu exatamente naquela coluna de apartamentos. Geraldo confirmou que Fátima de Souza Ribeiro morava no sexto andar daquele prédio.
Apesar de serem três horas da madrugada, Tenente Gilberto com dois soldados subiram até o sexto andar. Fátima pulou de sua janela ou foi empurrada?
O apartamento da vítima estava fechado. O militar mandou que Gonçalves abrisse a porta com um aríete e entrou com Xavier. O quarto estava arrumado como se ela não tivesse passado por ali nem um dia. Na mesa da sala, no entanto, duas taças de vinho e um cinzeiro com baganas de cigarros apagados. Algumas baganas tinham marca do batom de Fátima, outras não. Havia ainda um prato com uma pizza e uma caixa de pizzas do “Vagão de Pizzas”. Pela nota que Gilberto encontrou no lixo, eles – quem quer que estivesse ali – receberam a encomenda às vinte e duas horas. A cama de Fátima estava arrumada, mas o sofá estava com as almofadas jogadas no chão e com sinais de ter sido usado. A janela que dava para a rua estava aberta, mas não tinha nenhuma marca que pudesse mostrar alguma resistência da vítima. A mulher se jogou ou foi jogada por aquela janela.
Gilberto mandou que tirassem o corpo dela da rua e o levassem para o necrotério. Se tivesse algum meio de descobrir quem a matou, talvez ele visse no corpo da vítima.
A Polícia precisava falar com todos do prédio e como era janeiro, mês de férias, alguns apartamentos estavam vazios.
No sétimo andar não havia moradores em nenhum apartamento. No sexto andar daquele prédio, apenas o apartamento de Fátima e em mais dois outros apartamentos havia moradores. Um deles estava ocupado por um casal de idosos. O marido de oitenta e oito anos era acamado e a esposa, com oitenta e cinco era quem geria a casa. Ela ainda era lúcida. O marido tinha demência senil, não conhecia nem a esposa em todos os momentos. Eles tinham acompanhante dia e noite. No momento, era uma gorda senhora de idade que não teria a mínima chance de empurrar ninguém por uma janela.
No outro apartamento, um jovem morava sozinho e estava bêbado, o porteiro avisou que ele acabara de chegar minutos antes da queda da vítima pela janela. Não deveria ter sido ele. No quinto andar, quatro apartamentos tinham moradores. Em um deles, seis estudantes jogavam baralho e tomavam vodca barata. Não viram nada. Levaram um grande susto quando ouviram o alarme do carro e a falação no meio da rua. Todos afirmaram que não arredaram pé do apartamento e não conheciam a vítima. No apartamento da direita, morava Sislene de Freitas, estudante de psicologia. Ela era de Ubá e veio à cidade para acertar aluguel e contas. Ela disse que viu Fátima poucas vezes e no máximo se cumprimentaram no elevador. Ela estava dormindo na hora que o corpo caiu.
O terceiro apartamento era de um homem de quarenta anos de idade que trabalhava na Universidade Federal na coordenação da Biblioteca Central. Ele estava bastante irritado de ter sido acordado com tanta balbúrdia. Depois que soube da morte, aquietou-se um pouco.
No quarto apartamento, um casal de professores universitários, Gilson de trinta anos era professor de Geografia na Federal e Claudio, lecionava matemática no Colégio Pio XII. Eles disseram ao tenente que chegaram em casa as vinte e duas horas e dormiram por volta de vinte e três horas. Cláudio lembrou que viram um seriado e depois dormiram porque estavam muito cansados. Não conheciam a vítima.
No quarto andar nenhum apartamento tinha um morador nessa noite assim como no terceiro. Restava o segundo andar com três apartamentos ocupados. Sueli morava com a mãe idosa e, com o salário que tinha como funcionária pública, só conseguia pagar um aluguel de um apartamento quarto e sala. Estavam ambas dormindo e acordaram quando o Tenente Gilberto bateu à porta. Sueli atendeu assustada. Ela via a vítima quando saíam ou quando chegavam do trabalho. Ela achava a vítima muito fechada e nunca passaram de um comprimento rápido.
No outro apartamento de estudantes, moravam quatro rapazes que estudavam engenharia na Universidade Federal e estavam todos em casa. Estavam na sala bebendo na hora do acidente. Gilberto entrou naquele apartamento desarrumado e sentiu cheiro de cigarros e maconha. Os jovens disseram também que estavam em casa desde às vinte e uma horas. Estavam trabalhando em um projeto e, quando terminaram, resolveram tomar umas bebidas e relaxar um pouco. Os jovens riram quando contaram isso para o militar, mas estavam à vontade para dar seus depoimentos.
No último apartamento com moradores naquele andar era de uma mulher de quarenta anos, solteira que trabalhava como vendedora no Magazine Luiza.
Gilberto estava há duas horas coletando informações dos moradores e desesperado para tomar um café. Uma noite inteira de trabalho e nenhum café para ele era a morte.
Ele foi para a delegacia e deixou Gonçalves e Xavier encarregados de convocar todos os moradores para deporem na delegacia à tarde. Ele precisava tomar muitos cafés e aguardar a primeira impressão do legista.
Quem será que matou Fátima? Qual o motivo de tamanha violência? perguntou-se ele.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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