O CASAL GAY NA FILA – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

O CASAL GAY NA FILA

Eu estava parado na porta de um estande grande na Horror Expo em São Paulo e vi que na fila ao lado um casal gay, enquanto esperava sua vez para entrar naquele outro espaço vizinho e levar alguns sustos, se abraçava e se beijava loucamente.
Primeiramente, devo dizer que não acho necessária essa demonstração de carinho em público, seja ela por qual tipo de casal seja hetero ou gay. Incomoda a quem está por perto por não saber o que falar ou por não estar fazendo o mesmo. Uma vez, eu saí com amigos e um deles deu um “amasso caprichado” na namorada na frente dos demais e ficamos todos sem saber o que fazer ou dizer. Estávamos mesmo, com “cara de tacho”.
O casal gay continuava na fila e eu de capa preta até nos pés tentava vender meus livros, anunciar meu Blog e me fazer conhecido quando um senhor me disse:
_ O senhor tem que fazer alguma coisa.
_ Como é, senhor? – perguntei sem lhe dar atenção.
_ Ali, oh! – disse apontando com o queixo em direção à fila onde se encontravam os rapazes.
_ Como que é? – perguntei e ele não me olhava.
_ Dar um jeito ali, oh! – repetiu- se ele. – O senhor não é padre? Ou está vestido de padre.
Eu o encarei com meus olhos de lentes vermelhas brilhantes e lhe disse:
_ Não! Pelo contrário, eu não sou.padre – percebi que ele me olhou assustado pela primeira vez. – Eu sou um vampiro! Sou vampiro e sou favorável a toda forma de amor. Não sou padre – repeti, – sou bem devasso e o pecado me interessa – enfatizei pecado. – Eu gosto mesmo do amor livre, da “pouca-vergonha”, como você diz, gosto do pecado – repeti. E gosto dos seus pecados.
_ Meus pecados? – perguntou ele com dificuldade de falar.
_ Sim! Dos seus pecados escondidos. Estou vendo todos aqui – pus a mão na cabeça como se lesse a sua mente. – Seus pecados são maiores que o daqueles rapazes que somente se amam. O senhor ama mesmo sua esposa? Nunca a traiu? Quais são os seus pecados?
Nesse momento eu tinha envolvido nós dois com a luz vermelha dos meus olhos e para ele não existia mais a feira imensa no Anhembi. Ele estava perdido. Não sabia o que fazer e estava quase pronto para me deixar beber de seu sangue e matá-lo ali mesmo na frente de centenas de pessoas.
_ Eu nunca beijei um homem – sussurrou ele. – Nunca!
_ Ainda dá tempo! Pare de se meter na vida dos outros.
_ Eu sou um pecador – desabafou ele.
O homem saiu andando sem voltar os olhos para trás. Nunca mais iria usar seus preconceitos, ou quando acabasse o efeito do meu domínio sobre sua mente, voltaria a ser o mesmo preconceituoso, cheio de arrogância e falsidade?
Não sei! Nunca mais vou vê-lo.
Igual a esse homem idoso, muitos são os falsos moralistas que não fazem em público o que a sociedade também preconceituosa condenaria, mas às escondidas são devassos. Muitos são puritanos no lar e mantém relações com prostitutas e gays que satisfazem seus fetiches mais sórdidos. Muitos não têm coragem de assumir o desejo mais louco e sem regras porque têm conceitos e preconceitos criados pela vida atual.
Quando olhei pra fila onde estavam os rapazes, eles já haviam entrado no estande de horror e eu os perdi de vista.
Continuei de olhos vermelhos e capa preta até a hora da minha transformação em humano novamente, mas fiz muitos contatos e amigos na Horror Expo. Foram apenas dois dias muito intensos de vampiros, bruxas, demônios, Serial Killers, assassinos cruéis que permitiu que nos divertíssemos muito. Pena que algumas pessoas, como.aquele homem idoso, não se permitem achar o melhor da vida. Muitas pessoas não se permitem ser alegres, não conseguem se divertir e nem cuidar da sua própria vida.
Assim como o casal gay da fila, como tantos outros casais, gays ou não, desejo que sejam felizes. Uma coisa, porém, é certa, muitas vezes, essa demonstração exagerada de carinho em público, não é tanto amor, mas uma forma de agressão desnecessária à quem está ao redor. Amor é lindo em qualquer gênero e em qualquer lugar, mas as pessoas têm que respeitar o espaço dos outros para cobrarem pra si o respeito que merecem.
Será que depois da nossa conversa, aquele senhor vai beijar a boca de algum amigo? Não sei! Como não suguei seu sangue, não saberei mais encontrá-lo. Que ele seja feliz!

Foto tirada do Pixabay.
A mesma que eu usei para capa do livro “O FILHO DE BERTA” – publicado no Wattpad:
https://www.wattpad.com/story/184260809-o-filho-de-berta/

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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