O COVEIRO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

O COVEIRO

Adélia era a mais bonita de todas as filhas de D. Clementina e a única viva da família. Com seus dezoito anos de beleza universal, Adélia era triste e sem a juventude necessária à idade.

Como era de costume, toda semana levava flores ao túmulo da mãe e das irmãs. E é aí que a encontramos agora: – sentada na sepultura branca, fria e úmida pelo orvalho da noite que descera mais forte. O rosto triste de Adélia em nada prestava atenção, apenas era molhado por lágrimas sentidas.

De súbito, como por encanto, passa por perto da cova o coveiro que fazia a limpeza do cemitério. Os olhos de Adélia viram o rapaz com seus vinte e cinco anos, mais ou menos. E como nunca houvera acontecido antes, Adélia o desejou.

O coveiro, em frente ao lugar onde a moça se sentava, limpava um túmulo sem ao menos reparar nos olhos cobiçosos da bela fêmea que tinha à frente.

Adélia percorria o corpo do rapaz com os olhos: o peito rígido e forte, nu ao sol brilhante, o sexo fazendo volume sob a bermuda que lhe deixava à mostra as pernas peludas e perfeitas, o rosto contornado pela cabeleira esvoaçante e loira apresentavam o homem mais bonito que os olhos da menina triste tinham visto em toda a sua vida. E ela desejou  percorrer aqueles lábios sedutores com a língua, num terno beijo, agarrar aquele peito másculo e sentir-se presa por aqueles braços fortes…

O coveiro terminou o serviço e retirou-se para lavar outro túmulo. Adélia, instintivamente, seguiu-o e se fez notar. O rapaz, apesar de ocupar-se do serviço, não deixou de notar as formas maravilhosas que o corpo feminino a sua frente mostrava. E ela era linda, um corpo perfeito, cabelos negros de seda, a pele alva como a lua e o vestido por cima da pele.

Após segui-lo por diversos túmulos, o coveiro aproximou-se e Adélia sentiu um frio na espinha. Sem ao menos uma palavra, deram-se as mãos e um abraço e um beijo e um aperto a mais. E caminharam sem rumo pelos túmulos em silêncio.

E exatamente no sepulcro da família de Adélia pararam. Um novo beijo. A moça sentiu o sexo do rapaz excitado e o bigode a roçar-lhe os seis já nus. Sua mão percorreu o peito do coveiro, do homem que lhe dava amor e entregou-se à ele. Sobre a tumba deitou-se e nua abriu as pernas para que o sol pudesse comprovar a maravilha que se supõe quando vestida.

Rapidamente o coveiro arrancando a bermuda, mostrou-lhe as formas do macho que ela desejava. Deitando-se por cima dela, cavalgou-a até o orgasmo mútuo, quando ele desapareceu e ela continuou imóvel com um sorriso nos lábios.

No dia seguinte, o único coveiro, velho e manco, que não trabalhara no dia anterior, encontrou-a na mesma posição. Adélia morrera. Morrera rindo e se entragando ao que ela desejava e que talvez com ela reine na escuridão das trevas!…

 

Maloca Querida, 1998: 25-7.

Imagem: http://suspenseecontosdeterror.blogspot.com.br/2013/08/o-coveiro.html

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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