O MISTÉRIO DA CASA MARROM – CAPÍTULO 3 – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

O MISTÉRIO DA CASA MARROM – CAPÍTULO 3

Quando acordou, Mateus se assustou: estava deitado em uma cama dura, estava vestido só de cuecas e amarrado no catre. Estava escuro, ele não sabia se era noite ou se aquela escuridão fosse apenas pela falta de janelas. Ele tentou sentir algum cheiro e o que sentiu era muito desagradável, tentou ouvir algum som e ouviu alguém que costurava em uma máquina no canto do quarto. Ele não conseguia ver, não conseguia se mexer, mas conseguiu gritar.
_ Socorro! Socorro! O que está acontecendo?
Ouviu passos e viu se aproximar um homem de cabelos longos e brancos. Quando ele se aproximou com uma vela acesa, Mateus percebeu que era o homem que o recebeu na casa e lhe ofereceu comida. Ele não se lembrava de mais nada depois de ter jantado.
_ O que está acontecendo? Por que estou preso nessa cama? – perguntou ele gritando.
_ Fica quieto – disse-lhe o homem ríspido.
_ Eu preciso ir embora – ele gritou puxando as amarras dos braços.
_ Você não pode mais ir embora – advertiu o homem sério.
_ Por que não?
_ Porque eu não quero. Agora cala a boca – o homem amarrou os cabelos brancos na nuca e fez um gesto levantando a mão em direção a Mateus: o rapaz não conseguiu falar mais nada.
O dono da casa voltou a medir o corpo de Mateus, como já fizera algumas vezes, deitado naquela cama imunda como a casa, imunda como aquele porão escuro e mal cheiroso. Ele voltou para a máquina de costura.
Preso pelas mãos e pés, Mateus conseguiu levantar a cabeça e observar o lugar onde estava. Ao fundo uma mesa onde o seu algoz costurava, do lado direito do cômodo estava sua cama e do lado esquerdo, a princípio, ele não entendeu o que estava vendo: parecia que eram manequins parados atrás de uma parede de vidro. Olhando direito, ele viu que eram bonecos de pano. Eram bonecos de tamanho de seres humanos adultos e todos estavam cobertos pelo mesmo pano azul. Ele não sabia o que estava acontecendo. O que eram aqueles bonecos imóveis naquele cômodo fedorento?
O homem se aproximou novamente de Mateus e trazia nas mãos uma calça que acabara de fazer para o rapaz amarrado na cama. O jovem olhou para o tecido da calça, olhou para os corpos em pé atrás daquele vidro e era a mesma cor, o mesmo material.
Aqueles bonecos eram humanos? Eram vítimas daquele demônio? O cheiro que só naquela hora Mateus distinguiu, era carne humana em putrefação. O homem olhou para Mateus. O rapaz viu através de seus olhos verdes que o ser que o mantinha preso na cama era um demônio que iria prender o seu corpo em uma prisão de tecido e magia e iria roubar a sua alma. Só assim ele se mantinha naquela casa e com aquela aparência de jovem. Ele já tinha sacrificado uma dezena de pessoas, ele havia incorporado em si, uma dezena de almas.
O pavor de Mateus foi imenso. Ele estava impossibilitado de gritar ou falar qualquer coisa, ele estava amarrado na cama. O que ele poderia fazer? O demônio voltou à máquina de costuras e o rapaz deixou escorrer uma lágrima. Era seu fim? O que faltava acontecer?

               

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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