O PACTO – 13º CAPÍTULO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

O PACTO – 13º CAPÍTULO

Eles caíram e Augusto percebeu que estavam dentro da redoma de energia que protegia a igreja. Ele estava ferido. Tinha muitas queimaduras no corpo, as asas estavam quebradas e sentia dor imensa. Estava, no entanto, feliz. Ele conseguiu tirar o patrão do inferno. Estêvão aceitou a sua insistência e resolveu sair de lá, quebrar o pacto.
Quando o anjo negro se jogou sobre ele, Augusto achou que era seu fim. Achou que estava se entregando de corpo e alma para salvar Estêvão e ele queria matá-lo e jogá-lo no inferno. No meio da queda ainda pode observar o sofrimento daquelas almas que eram duramente castigadas por pecados que, às vezes, nem sabiam a grandeza do pagamento.
Alguns seres eram mutilados e o membro crescia novamente para sofrer nova mutilação. Alguns eram queimados em fogo eterno para que sofressem dor para sempre. Quanto mais desciam naquele voo sem direção definida, mais Augusto revia o inferno como havia imaginado ao ler “A Divina Comédia” anos atrás. Ele começou a imaginar que Estêvão o estava levando para o mais sombrio dos infernos de onde ele jamais conseguiria sair. Quando o patrão lhe disse que estava procurando os pais, o gerente soube que havia conseguido seu objetivo: salvar aquele pai de família.
Ambos conseguiram tirar do Caldeirão Fervente os dois idosos levados para aquele lugar injustamente – suicidas sim, porém, ambos foram induzidos a cometer suicídio o que caracterizava assassinato. Foram ambos assassinados pelo emissário dos infernos. Quando estavam voando para sair daquele fosso sem fim, começou o ataque dos demônios guardiões do inferno. Era tanto fogo e tanto raio que não havia como não se ferir. Ambos sentiram dor, sentiram cansaço e tiveram as asas queimadas. O voo era cada vez mais difícil, mas Augusto tentava ainda incutir na mente do patrão a esperança de rever sua família. Saindo pelo portal que Estêvão abriu como sua última ação como demônio, ele encaminhou os pais para um lugar de luz onde a mãe de Augusto os recebeu feliz.
Dentro da igreja, Marcelo foi o primeiro a perceber que havia algo diferente quando ouviu o barulho dos corpos caindo quase na porta da igreja. Precipitou-se a correr pela igreja para sair pela porta da frente e a mãe, irmãos e o padre seguiram-no.
Selma imaginava mil besteiras. Imaginava que o marido estivesse chamando o filho e perderia também aquele que, pela doença, pelo carinho diferente que dedicara, era seu filho predileto. Correu como pode para tentar segurar o filho, mas passaram juntos pelo pórtico da porta principal da Catedral.
O que viram assustou a todos. Estavam dentro de um invólucro de energia, como se dentro de um aquário, e o mundo do lado de fora ardia em chamas.
Marcelo viu o pai. Correu até ele e caiu por cima daquele corpo inerte. Ao seu lado, Augusto recuperava-se dos ferimentos e queimaduras fatais. Sentia que seu corpo se reconstituía completamente. Olhou para o alto e viu o Arcanjo do lado de fora do escudo de energia conservando a proteção a eles.
Selma sentou-se no chão. Colocou a cabeça de Estêvão no colo e chorou. Os filhos a seu lado, choravam a perda do pai de forma tão traumática. Augusto olhou o quadro familiar de tanto amor e pediu, mais uma vez ao Pai, ajuda.
No momento em que Augusto se sentiu completamente curado de todos os ferimentos graves que sofreu e pode se levantar, o relógio da igreja bateu a sétima badalada do meio-dia, Estêvão respirou fundo saindo daquela apneia prolongada. Nesse mesmo momento, o fogo que chegava a ultrapassar as fronteiras da cidade, parou de arder. Um leve vento passou por eles e uma esperança surgiu nas mentes de todos. Nova batida no relógio e construções que desabaram voltaram ao que eram e a reconstrução foi acontecendo de forma centrípeda trazendo luz onde havia muita fumaça. Outra batida e Estêvão olhou para a mulher que ainda chorava, mas também sorria de alegria. Os filhos o abraçaram mesmo no chão duro do asfalto em frente à igreja e o padre caiu de joelhos agradecendo a Deus que não havia perdido aquele filho. Na décima badalada, os prédios ao redor da igreja já se levantavam e o fogo no morro do Cristo acabou. O calor do lugar diminuiu e viram que havia um céu azul sobre eles. Décima primeira badalada do sino, barulho na rua. Um vento um pouco mais forte, pio de pássaros. Selma olhou para o marido que estava completamente recuperado e lhe disse:
_ Eu amo você!
_ Eu amo muito você – foi a resposta que ele emitiu com o olhar cheio de paixão.
Décima segunda badalada do sino. A cúpula de energia se desfez. Os anjos e espíritos de luz que estavam dentro da igreja se rejubilaram com o Arcanjo que do alto observava a cidade de Juiz de Fora íntegra se estender por vários morros ao longe. Olhou o trânsito na Avenida Rio Branco e riu: tudo com a lentidão de sempre. O horário fazia com que, da Rua São Sebastião à Avenida Itamar Franco, o trânsito fosse quase insuportável. Ainda bem, pensou ele, o povo de Juiz de Fora não usa tanto a buzina, inútil nesses casos. A maioria ia calmamente, chegar ao seu destino.
Selma e o marido se beijaram. O tempo voltou a correr normalmente. Somente eles envolvidos nessa guerra quase santa sabiam o que se passou. Para toda a cidade, nada aconteceu. Tudo foi resolvido em um segundo e ali estavam eles, no asfalto em frente à porta da Catedral Metropolitana de Juiz de Fora.
Estêvão quis se levantar. Marcelo o ajudou. Era o filho mais forte e cheio de energia. Eles nunca se esqueceriam daquele fato, daqueles últimos anos. Jamais haveria outro pacto!
Augusto se aproximou do patrão. Estava recomposto, roupa em retalhos, como a de Estêvão, e cumprimentou o patrão.
Estêvão reconheceu que ele foi o responsável pela sua salvação. Abraçou o amigo para toda vida.
_ O que você está fazendo aqui, rapaz? – brincou ele. – Quem está tomando conta do nosso restaurante?
_ Nosso? – perguntou Augusto assustado.
_ Temos muito que conversar, meu amigo.
Estêvão cumprimentou o padre com um forte abraço. Beijou os filhos como jamais havia feito e deu o braço à esposa. Passou o outro braço sobre os ombros do sócio e entraram na Catedral para agradecer o fato de estar vivo.
Estêvão jamais iria pedir outra coisa na vida que não tivesse condições de pagar.

               

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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