O PACTO – IX CAPÍTULO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

O PACTO – IX CAPÍTULO

O cenário estava caótico. Fogo para todo lado destruía Juiz de Fora paralisada no tempo. Os carros da Avenida Rio Branco, com o calor insuportável explodiram e causavam mais incêndio. Até a Magnólia, árvore centenária que floresce o ano todo do lado direito da escada que leva o fiel da calçada para o velário pegou fogo e as flores deixaram rapidamente de ser brancas para sumirem na fumaça. Não havia um só lugar ao redor da Matriz, desde a Praça Riachuelo até a Avenida Itamar Franco, do morro do Cristo à avenida Getúlio Vargas que não estivesse em chamas. Exceto a Matriz protegida pela energia agora de vários anjos que se juntaram à família que rezava.
_ Selma – chamou padre Jonas, – não entre em desespero. Deus é maior e vamos sair dessa.
_ O que aconteceu, padre? – perguntou a mulher que escapara há pouco tempo de ser morta por um lustre imenso.
_ Ele não pode entrar aqui – explicou o padre, – mas assim como temos esses espíritos de luz que nos prestam socorro e que moram dentro dessas paredes e desses altares, muitos espíritos sem luz, ignorantes e fracos vivem por aí espalhados na igreja. Esses são facilmente influenciáveis por ele – o padre fez um gesto com a mão para significar o capeta, ele não ousaria dizer o nome da besta dentro da igreja.
_ Então, a igreja está cheia de entidades o tempo todo? – perguntou ela.
_ Sim, Selma – continuou o padre. – É um lugar aonde vêm muitas pessoas e essas pessoas trazem almas que se recusam a ir para a morada do Pai. Eles não sabem aonde ir ou o que fazer.
_ Entendi. Padre – perguntou Selma – o que vai acontecer com Estêvão?
_ Não sei, minha filha – o padre parecia desanimado em relação ao dono do restaurante. – Vai depender do seu marido. Só dele dependerá o próprio futuro, de vocês e de Juiz de Fora.
_ Não sabemos como está lá fora – disse ela preocupada. – Será que ainda é perigoso sair da igreja?
_ Nem pensar nisso agora – falou alto Jorge que ouvia a conversa de sua mãe com o pároco. – Juiz de Fora está em chamas e ele ainda está lá fora tentando entrar na igreja.
_ Meu Deus! O que faremos, padre? – perguntou Selma
_ Confie, minha filha. Confie sempre!
Estêvão estava irritado. Quanto mais incêndios provocava, mais via que era impossível entrar naquele templo protegido por tanta energia positiva. Olhou para seu mentor que ainda mantinha o portal para o inferno aberto e percebeu que ele era apenas um emissário do inferno. Não era tão poderoso quanto imaginou e talvez, estivessem com a mesma força e poder naquele momento. Ele não teria ajuda dele. Era somente ele para buscar a família e levar consigo seus filhos para o inferno. Voltou a atacar a bolha de energia que mantinha o templo protegido e assustou-se ao ver surgir à sua frente Augusto com roupas e asas imaculadamente brancas. A alvura do anjo lhe ofuscava a visão.
_ Augusto – gritou ele, – desista!
Junto a Augusto, no entanto, outro anjo – pela armadura, um arcanjo – surgiu. Portava uma espada de lâmina brilhante e de corte afiado. Estavam ambos prontos para defender o que sobrou da cidade e defender a família daquele demônio. Estêvão assustou-se e, recomposto, riu. Sua gargalhada foi ouvida nas cidades vizinhas. Abalou alguns prédios que acabaram por ruir. Ao longe ouvia-se o barulho de postos de gasolina explodindo.
_ Vocês acham que podem comigo?
_ Estêvão, a sua única chance é romper com o pacto – gritou Augusto.
_ Não! Isso nunca – a voz gutural do demônio reverberou nas poucas paredes que existiam de pé na região.
_ Você precisa romper com o pacto. É a única chance de estar bem com Deus.
_ Deus não me aceita mais – gritou ele.
_ Salve a sua família – ordenou o anjo cuja brancura quase o cegava.
_ Não tem mais jeito – gritou Estêvão.
_ Tem sim, Estêvão. Você é filho de Deus.
_ Eu reneguei a Deus – gritou o demônio.
Enquanto isso, o mentor de Estêvão estava impaciente no portal do inferno sem poder ajudar o outro. Ele não tinha forças para fazer as duas coisas. Ele estava perdendo o jogo. Se ele soltasse o portal, ficariam presos na terra e não teria como levar Estêvão para as trevas. Ele era somente um emissário.
_ Estêvão – voltou a gritar o anjo, – venha conosco. Renegue o pacto. Desfaça o pacto enquanto há esperança.
_ Esperança de quê? – perguntou ele soltando um raio de fogo que foi desviado pela espada do arcanjo. – Eu não tenho mais esperança.
_ Há dois caminhos a sua escolha – voltou a insistir Augusto. – Um é aquele lá – mostrou o portal e o demônio a esperar por ele e o outro é o caminho da luz divina. Não escolha errado, Estêvão.
_ Não! – gritou ele.
_ Ouça a sua família. Ouça o coração de seus filhos e o tanto como eles o amam – implorou Augusto.
Estêvão estava perdido no meio da fogueira imensa em que transformara Juiz de Fora, o portal para o inferno e a voz que vinha do coração da sua família.
Dentro da igreja, Selma estava com o coração na mão, ouvindo a briga de palavras entre o anjo e seu marido. Ela não sabia ao certo o que ele era mais, mas ainda assim amava o Estêvão com quem se casou e com quem vivia esses anos todos construindo a família. Olhou para os filhos. Jorge e Márcio estavam muito assustados, mas ainda assim queriam o pai de volta. Marcelo ainda dormia, como se estivesse em coma, no chão da igreja, deitado em cima da toalha do altar que o padre Jonas usou para protegê-lo.
Eles estavam ansiosos e enviando cargas de amor para o pai, possuído pelo demônio, mas ainda com chances de escolhas. A força que vinha do interior da igreja era imensa.
Estêvão, não aguentando a pressão, gritou um grito agudo, de dor lacerante e sumiu nas nuvens de fumaça que tudo cobria.
Augusto e o Arcanjo continuaram de prontidão, ajudando a proteger a igreja e a não deixar que o emissário do inferno saísse do portal. Onde teria ido Estêvão?

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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