O PACTO – OITAVO CAPÍTULO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

O PACTO – OITAVO CAPÍTULO

Antes porém de conseguir passar pelo portal onde a besta o esperava, ele teria que romper laços que o prendiam a vida terrena. Dentro da igreja sua família rezava e pedia por ele. Ele sentia a atração da prece e a força da fé de seus filhos. Ele precisava neutralizar aquele laço de energia que não deixava que ele partisse.
Dentro da igreja, Selma rezava com os olhos pregados no Santo Padroeiro e pedia a Santo António que ajudasse a sua família. Os filhos rezavam de olhos fechados, mas tinham uma fé inabalável e pediam a Deus que lhes ajudasse na salvação do pai. O padre rezava no altar e de vez em quando jogava água benta na família. Eles eram um elo firme de fé e força para trazer Estêvão de volta.
Marcelo tossiu. Tossiu outra vez e na terceira tossida escarrou uma quantidade de catarro verde que assustou a mãe. Ela pôs a mão no filho e sentiu que ele estava com febre.
_ Não, meu filho não – gritou dentro da igreja fazendo ecoar por todas as paredes o seu grito. – Deixa meus filhos em paz! – voltou a gritar.
Marcelo pirou da tosse e da febre e ela o deitou no banco pedindo ao padre que a ajudasse. O pároco trouxe água benta e benzeu o rapaz. Depois foi buscar uma toalha que, molhada em água fria, colocou na testa de Marcelo tentando reduzir sua febre. Márcio e Jorge não se abalaram e continuaram rezando. Sabiam que era a única salvação deles todos.
O padre voltou ao altar e trouxe uma hóstia consagrada para que Marcelo comungasse. O rapaz deu um grito e se recusou a receber sacramento. Ele estava transtornado e envolvido pela influência do demônio que ainda no portal esperava Estêvão. Começou a gritar e somente Selma conseguia segurar o filho com muita oração e palavras de amor. Os irmãos, continuando em oração, choravam. Não podiam fazer nada diferente disso.
O tempo continuava parado, porém os incêndios se alastravam. O morro do Cristo parecia uma tocha viva atingindo várias casas. O prédio incendiado ruiu aumentando as áreas de incendio próximas a ele. Não havia um ser humano que pudesse apagar tal fogo. Estavam todos imobilizados pelo tempo.
Estêvão resolveu entrar na igreja. Ao tentar, viu que uma energia invisível impedia que ele se aproximasse. Havia um escudo de fé intransponível. Ele tentou novamente e não conseguiu. Novas investidas sem sucesso fizeram com que ele resolvesse atacar a igreja. Lançou um raio de fogo que bateu no escudo de energia e ricocheteou no Prédio Alber Ganimi fazendo com que o edifício mais alto da cidade caísse em direção à rua Oscar Vidal e levasse consigo mais seis ou sete prédios altos cheios de vida humana. A devastação atingiu até a Avenida Itamar Franco. Centenas de mortos.
Outro raio de fogo e o lado direito da Matriz também foi atingido. O Edifício da Clínicas se transformou em uma fogueira com labaredas altíssimas e em pouco tempo esse fogo se alastrou para outros prédios vizinhos. Era muita destruição e incontáveis mortes.
O filho de Estêvão agonizava no chão da igreja. Estava com mais de quarenta e dois graus de febre e já havia feito.duas crises convulsivas. Selma aos prantos, abriu os braços na frente do altar e pediu com toda a força de seu coração que alguma força espiritual pudesse ajudá-los. Ela rezava e chorava e quanto mais rezava mais esperança tinha de que tudo iria dar certo. Observou que Marcelo já não se debatia mais no chão da igreja.
O padre Jonas com medo do que poderia acontecer com eles caso a força maligna rompesse a barreira de energia positiva que protegia a Matriz invocou todas as entidades presentes naquele templo para ajudarem. Orou, pediu ao Pai que lhe enviasse espíritos de luz que estivessem naquele lugar para combater o mal.
_ Senhor, meu Deus, eu sou impuro e fraco para proteger a Sua casa. Pequei várias vezes e não prometo de nunca mais pecar. Ajudo, no entanto, um monte de pecadores a seguirem para o caminho da Sua luz. Ó, Pai Divino, não nos deixe sós nesse momento de tanto desespero. Proteja essa família querida que não tem que pagar pelo erro do pai e marido.
O homem continuou pregando e o silêncio foi quebrado por algo que se mexeu. Ele parou de rezar e olhou para o altar. Do alto, atrás da imagem mor, surgiu um ser tênue, transparente, cheio de luz. De outros pontos dos altares, outros seres de luz foram surgindo e se postando ao seu lado. Ele estava estupefato. Estava maravilhado com o que via. Selma e os rapazes olharam para aqueles seres divinos que surgiam até dos vitrais e se postavam juntos a eles. Havia uma infinidade de seres que habitavam os altares, vitrais e todos os espaços da igreja. Claro que havia também seres não iluminados que não foram chamados, mas que também habitam as reentrâncias de qualquer lugar onde possam se esconder dentro de uma igreja. Aqueles seres de luz abraçaram a família e ao padre e puseram-se a enviar energia para o escudo que protegia o templo. Marcelo já não tinha mais crises convulsivas, mas ainda estava enfraquecido e sem poder falar qualquer coisa, parecia estar em coma.
Selma estava preocupada com o filho. Não queria que ele adoecesse novamente e temia pela vida do rapaz. A febre não cedia. Eles estavam todos em oração e o filho do meio parecia que estava novamente doente como antes de tudo começar. Ela chorou. Chorou e desesperada gritou no meio da igreja.
_ Deixa o meu filho em paz. Se for para levar alguém que seja eu. Me leve no lugar do Marcelo, mas não faça mal ao meu filho.
Ela gritava e andava pelo meio da igreja e, de repente, Jorge gritou para que a mãe saísse dali e um anjo daqueles que os rodeavam envolveu Selma em luz no momento em que um lustre caiu não machucando ninguém.
_ Minha filha – pediu o padre, – não faça mais isso. Não haverá troca e não haverá morte na casa do Pai. Vamos voltar a rezar.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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