QUEM PROCURA SEMPRE ACHA – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

QUEM PROCURA SEMPRE ACHA

Todo dia quando ele entrava naquela rua tinha um frio na espinha e pensava que algo de ruim iria acontecer com ele. Era uma rua curta, mas a iluminação era precária e ele tinha que passar por ali para chegar em casa. Saia do trabalho às vinte e uma horas e quando passava naquele trecho específico imaginava-se sendo vigiado por alguma força sobrenatural, algum espírito, algum vampiro, sebe-se-lá-o-quê. Ele queria correr sempre que chegava naquela rua, mas tinha medo de chamar a atenção do que fosse que estivesse à espreita. E se o monstro acordasse e viesse atrás dele?

Naquela noite fora pior, era lua cheia, ele estava mais atrasado ainda e não havia um só barulho na rua, um só ser vivo, uma luz acesa. Difícil ter uma luz acesa, não havia muitas casas naquela rua e pouquíssimas janelas. Ele nunca vira uma delas com luz acesa no interior. Achava mesmo que não morava ninguém ali. Seria uma rua fantasma? Estaria a rua cheia de fantasmas que se divertiam quando ele entrava ali morrendo do medo.

E por que ele passava ali todas as noites? Porque gostava de sentir medo. Porque gostava de pensar que algum ser mitológico, imaginário, espacial iria ataca-lo e ele iria se tornar parte desse ser, ou iria sucumbir e morrer por um ataque de fúria de um lobisomem. Qualquer que fosse a origem do mal lhe interessava e ele queria conhecer o seu “amigo” do lado escuro da vida. Queria que alguém entre os seres das sombras aparecesse para ele ali naquele beco e lhe propusesse transforma-lo também em um ser igual. Ele teria poderes inenarráveis, poderia estar acima da reles população normal. Ele queria ser atacado por um espírito que lhe desse a chance de ter uma visão diferente do mundo.

Passava pela rua com medo, arrepiado, coração batendo mais depressa que o normal, mas passava mais devagar. Queria que aquela rua fosse maior e ele pudesse ter mais tempo de oferecer seu contato com o desconhecido. Era ali, ele sabia, que os seres da noite estariam reunidos. Ele sabia que não teria problemas com seres humanos vivos naquele pedaço de rua deserta. Se aparecessem humanos ele correria a e estaria a salvo na rua grande e iluminada que estava a menos de cinquenta metros de onde ele estava.

Olhava para todos os lados e procurava ver se distinguia na escuridão um par de olhos vermelhos. Naquela noite ele queria um vampiro. Poderia ser também um lobisomem, mas os lobos costumam ser muito mais violentos e matavam as vítimas. Ele preferia sobreviver. Quem sabe ele não encontraria uma bruxa horrível e fedorenta que se interessasse por ele e lhe desse poderes de magia para viver com ela para sempre? Ele estava andando devagar para que o prazer de andar na escuridão da rua não acabasse tão cedo quando ouviu um barulho estranho a sua esquerda. Parecia que havia alguém se escondendo atrás de uma lixeira enorme. Ele parou. Não sabia o que fazer. Não sabia se se aproximaria ou se correria para se salvar do mal. Pensou um pouco. Aguçou o olfato para sentir algum cheiro diferente e sentiu um perfume amadeirado e forte que lhe deu uma sensação boa. O que quer que estivesse ali, exalava um perfume delicioso. Ele sabia que aquele perfume não era da lata de lixo, pelo contrário. Parado, olhava para a rua grande à sua direita a poucos passos e a lixeira a sua frente bem mais perto. Ele queria descobrir quem estava ali, mas também queria fugir e queria olhar para o ser que exalava o perfume, queria estar à luz da avenida, mas queria ter aquele ser para si, queria se entregar àquela entidade. Suando, sentindo calor, o batimento cardíaco a mil, deu um passo em direção à lixeira e o barulho de alguém se escondendo foi ouvido novamente. Havia alguém ali, não havia dúvidas. Excitado, pode sentir até o começo de uma ereção, deu mais um passo em direção à lixeira.

_ Quem está aí? – perguntou.

Não houve respostas, mas ele sentiu o perfume mais forte ainda. Era bom aquele perfume. Sentia que havia um ser qualquer ali que talvez não fosse humano, mas que não lhe faria mal. Deu mais um passo e estava perto da lixeira quando viu um par de olhos amarelos como se tivessem luz própria olhando para ele. Havia um ser estranho atrás daquela lata de lixo. Ele estava escondido, mas não estava com medo do rapaz que se aproximava. Ele era mais forte e mais poderoso. Estava escondido porque não queria contato. Após ter sido visto pelo rapaz, o vampiro desapareceu como por encanto deixando o perfume no ar.

O rapaz aspirou profundamente o perfume, sorriu e sabia que mais dia menos dia iria ter um contato diferente com aquele ser das trevas. Naquele momento estava feliz e saiu do beco escuro para a avenida iluminada com um grande sorriso no rosto. Estava feliz. Ele sabia que existia alguma coisa no beco e ele iria se encontrar com ele. Teria pela frente muitos dias para passar naquela rua escura e cheia de seres misteriosos. Iria voltar noite após noite. Ele acreditava que quem procura sempre acha! Ele estava certo disso!

Foto: http://br.freepik.com/fotos-gratis/rua-escura-na-eslovenia_638252.htm

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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