ROBE DE CHAMBRE – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

ROBE DE CHAMBRE

Quando eu era adolescente, criança talvez, eu achava lindo usar um robe de chambre. Achava elegantérrimo vestir aquela indumentária e sentar-me à mesa para o breakfast ou para o déjèneur du matin. Claro que eu estaria todo dia barbeado e com um belo terno e gravata por baixo dessa seda linda – acho que nem de seda eu consiga achar pijama bonito ou sair do quarto com um deles. Sentar-me-ia à mesa e me deleitaria com as notícias do The Guardian ou do Le Monde antes de ir trabalhar. Teria o prazer de acordar duas horas antes de sair de casa para ter a alegria de andar pelos inúmeros cômodos da casa ostentando aquele robe que quase escondia os sapatos pretos exaustivamente cuidados para que brilhassem por si só. A visão do homem de robe, tomando seu desjejum acompanhado de um jornal importante do país me enche os olhos de alegria. O frio do dia a ser enfrentado nas ruas – gostaria de caminhar sentindo essa brisa gelada no rosto -, me daria a felicidade de estar envolvido naquele tecido fino e ao mesmo tempo protetor. O chá, um café com leite e brioches variados, uma fruta – nem sempre presente pelo preço da importação – e eu estaria a postos para trocar o robe de chambre pelo sobretudo acolhedor que junto a tanta roupa me daria a proteção necessária para caminhar até o trabalho. O céu encoberto, sempre encoberto e o vento frio do inverno…
Não sei porque, sempre penso no inverno e naquela sala azul com decoração neoclássica onde eu estaria sentado, com meu robe de chambre tomando meu desjejum. Adoraria o sabor daquele chá forte e quente me ajudando a acordar para mais um dia de trabalho.
Não tenho um robe de chambre! No calor brasileiro, acordo com pouco tempo para tomar um café preto com pão e manteiga e sair voando de carro para algum lugar para trabalhar até não sei que horas. Jornal? Ouço no rádio ou vejo na televisão. O terno e gravata do sonho, no calor do Brasil, repousa sempre no guarda-roupa à espera de uma ocasião especial ou de uma viagem para onde eu possa comprar nas bancas o The Guardian ou Le Monde ou Il Corrieri della Sera.
Resta-me um calção de pijamas, única peça com que durmo e calções variados para ficar em casa e fazer minhas atividades físicas. O calor, às vezes, me desanima de sair de casa. Por isso, quem sabe, o sonho de estar enrolado em um robe de chambre…

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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