SABER SORRIR – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

SABER SORRIR

 

Então, ele se instalara naquela cadeira pequena, pequena e desconfortável, e sorria para o nada. Nada presente em tudo e tudo tão somente nada, mas ele precisava sorrir. Não era seu aniversário, mas ele precisava sorrir. O elevador parou e, de repente, entrou um velho com uma bengala e ele sorriu, ao que o velho não sorriu a ninguém – como ele dissera bom dia e ninguém achou que o dia era bom ou que ele merecia algo de bom, ou algo do dia ou algo simplesmente.

Novamente, o elevador parou e, ao abrir-se a porta, ele imaginou o futuro saindo, o passado passando, os sonhos, os medos, as revoltas, as culpas. Onde estariam seus irmãos, sua família? Não havia mais família, não havia mais irmãos, somente dor, culpa, desespero e aquele nada rondando e rondando e cada vez mais presente.

A porta se fechou e prendeu, dentro do cubículo móvel, mais três pessoas que, além do velho, nada tinham em comum, apesar do fato de não sorrirem, de não dizerem nada de bom, de não desejarem nada de bom – porque não sabiam o que era bom, não sabiam sorrir, não sabiam ser felizes. E ele ali, com um sorriso no rosto. Ele sabia sorrir, mas ainda assim era triste, ainda assim estava desesperado e sentia falta da família que ele um dia deixou, da família que ele não quis construir, do filho que abandonara na sua cidade. Talvez estivesse grande. Será que ele saberia sorrir? Será que seria “bom dia” para ele, ou será que seria só “dia” sem ser bom? Como estaria seu filho? Como estaria a mãe do seu filho? Sorrindo, talvez, com “bons dias” de outro amante, mais amante e ela mais amada…

O elevador parou novamente e saíram todos. O barulho da subida e das engrenagens lhe cortava o coração, mas ainda assim ele sorria. As lágrimas corriam pelo rosto e ele sorria e repetia para si mesmo que era feliz porque, apesar dos maus tratos, da fome, do salário baixo, das famílias – a que deixou e a que não fez -, da culpa, da raiva, do desespero, da impotência para agir, da solidão, de ninguém ao redor, do nada, do silêncio quebrado pelas cordas do elevador, ele sabia sorrir e era o que fazia. E quando, novamente a porta se abrisse, ele continuaria sorrindo e diria “bom dia” a quem quer que fosse, que tivesse o dia bom ou ruim, não importaria. Importava somente que ele sabia sorrir!

 

Maloca Querida, 1998:7,8.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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