SÓ ISSO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

SÓ ISSO

Ela entrou no meu consultório, bonitinha, sessenta e poucos anos, vestida de flores estampadas no vestidinho preto, cabelos brancos presos um pouco acima da testa com um prendedor vermelho, olhos ativos, boca pintada e me disse:
– Bom… dia… doutor…
– Bom dia! – respondi-lhe eu, cumprimentando a sua acompanhante, e sorrindo as duas como sempre faço com meus pacientes. – Como vai?
Ela se endireitou na cadeira, olhou-me nos olhos e disse:
– Eu agora estou bem porque o doutor do coração me deu um remédio e eu tomei e estou melhor e estou muito bem não estou sentindo nada não graças a Deus não é que nem naquela veiz que eu plantava arroz no sítio da minha mãe e vendia tudo e tudo que eu vendia eu dividia com ela para ela nunca ficá no prejuízo coitada já que o sítio era dela e isso foi antes d’eu casá e depois eu tive pneumonia e fui internada no hospital e o doutor que cuidava de mim era solteiro mas não quis casá comigo não e eu falei para Maria que eu achava ele bonito mas o outro que me olhava não era bonito não mas aí ele sempre me olhava quando eu precisava de medicação era o Antônio que vinha e fazia a injeção lá mesmo e todo mundo gostava muito dele porque ele fazia medicação em todo mundo e a gente sempre que precisava dele mandava buscá ele na casa dele e a minha mãe fazia uns almoço para ele mas ele era muito feinho e trigueiro e eu não quis casá com ele não porque a minha mãe falô que com ele não porque era muito feio e a gente já criava galinha lá mesmo e comia tanta galinha que era muito bom e depois que eu casei eu continuei a criá galinha e aí me apareceu essas varize que eu tenho e eu não queria ficá com as perna roxa que nem as da minha mãe mas eu acho que não tem jeito não e aí outro dia eu fui na horta cuidá das galinha e aí escorreguei e me deu dor na perna e eu fiz umas compressa e miorô e eu fico muito preocupada com a minha casa que quando eu saio fica sozinha e eu tinha que saí para vim no médico mas eu só saio com a dona Maria que é minha cozinheira e que é essa bonitona que o senhor está vendo eu queria ser da cor dela mas eu sou assim muito branca e num posso tomá sol direito que me dá um vergão vermeio no meio da cara e hoje eu vim aqui vê o senhor mas está tudo bem!
– Tudo bem? – consegui perguntar depois de desfazer minha cara de perplexo e não rir.
– Tudo… bem… doutor…
– E daí? – questionei sem saber o que fazer.
– Daí que vim vê o senhor. Só isso
– Só isso?
– Só isso!
– Então ‘tá!
– Tchau, doutor.
– Tchau, D. Aparecida. Tchau, D. Maria – bonitona, pensei.
As mulheres saíram do meu consultório e eu não entendi nada. Quisera ela falar e falou. Ótimo! Eu a ouvi!

Maloca Querida, crônicas, 1998:111-3.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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