SONETO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

SONETO

O soneto é um poema com regras fixas quanto ao número de versos. O soneto italiano, que é o mais conhecido no nosso meio, apresenta duas quadras e dois tercetos. São versos com número fixo de sílabas e ordem de rimas.1
Pode-se fazer um soneto com qualquer número de sílabas métricas, mas o mais famoso deles é o soneto alexandrino.1

“O verso alexandrino (…). É uma criação Francesa. Escreve Quitard: “Este verso chama-se alexandrino, por ter sido metodicamente empregado na composição do famoso Roman d’ Alexandre lê Grand, — poema começado no século XII por Lambert Licors, de Châteaudun, e continuado por Alexandre de Bernay, trovador normando do mesmo século. Assim o seu nome é uma dupla alusão ao nome do herói e ao do trovador”.2

Classificação dos sonetos:
Quanto à classificação, eles podem ser de dois tipos: soneto italiano e soneto inglês.
Soneto italiano
São quatorze versos de dez sílabas poéticas, ou seja, versos decassílabos. Esses versos são organizados em duas quadras e dois tercetos.

Quadras
Estrofe de quatro versos com rimas alternadas (abab) ou opostas (abba).

Tercetos
Estrofe de três versos. Podem apresentar várias formas de rima ou até mesmo a ausência delas.

Exemplos:

SONETO ITALIANO
Manuel Bandeira

Frescura das sereias e do orvalho,
Dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:

De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinzas que em pranto ao vento espalho?

Também te vi chorar… Também sofreste
A dor de verem secarem pela estrada
As fontes da esperança… E não cedeste!

Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo, — à vida, que nunca te deu nada!

Exemplo:

AMAR!
Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida: C
É preciso cantá-la assim florida, C
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! D

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada E
Que seja a minha noite uma alvorada, E
Que me saiba perder… pra me encontrar… D

SONETO INGLÊS

Também possui quatorze versos, mas diferencia-se por apresentar três quadras e um dístico final. A combinação rímica é feita de acordo com duas organizações:
– abab bcbc cdcd ee: conhecido por soneto spenseriano, iniciado por Edmund Spenser.
– abab bcbc cdcd efef gg: conhecido como soneto shakespeariano ou soneto inglês.

Exemplo de soneto shakespeariano:

SONETO INGLÊS NO. 1

Quando a morte cerrar meus olhos duros A
– Duros de tantos vãos padecimentos, B
Que pensarão teus peitos imaturos A
Da minha dor de todos os momentos? B

Vejo-te agora alheia, e tão distante: C
Mais que distante – isenta. E bem prevejo, D
Desde já bem prevejo o exato instante C
Em que de outro será não teu desejo, D

Que o não terás, porém teu abandono, E
Tua nudez! Um dia hei de ir embora F
Adormecer no derradeiro sono. E
Um dia chorarás… Que importa? Chora. F

Então eu sentirei muito mais perto G
De mim feliz, teu coração incerto. G

SONETO ALEXANDRINO:

1ª regra: tem que ter quatorze versos;

2ª regra: tem que ter doze sílabas métricas, com sílaba tônica na 6ª e 12ª sílabas;

3ª regra: utilizar-se de um desses três esquemas de RIMA nos quartetos:

1 – cruzada, alternada ou entrelaçada (abab/abab);
2 – emparelhada (aabb/aabb);
3 – enlaçada ou interpolada (abba/abba).

Nos tercetos há uma maior liberdade para as rimas variando conforme o soneto, exemplos:

1 – (cdc/ede), (ccd/dee), (cde/edc), (cdd/eec), (cdc/dcd).

4ª regra: terminar todos os versos com palavras paroxítonas;

5ª regra: na medida do possível utilizar-se de rimas ricas;

6ª regra: não utilizar na pausa da sexta sílaba palavras proparoxítonas e se usar paroxítonas, terminadas em vogal, a próxima palavra deve começar em vogal para que haja elisão;

7ª regra: o último terceto deve encerrar toda a ideia do pensamento contido no soneto.

Observação: Não é difícil, enfim, fazer um soneto. São muitas as regras e muito se deve estudar de versificação para fazer um poema que utiliza uma forma tão rígida. Assim como a trova que também possui regras que têm que ser seguidas, o soneto é uma forma linda de se criar um poema.
Variados sonetos encontramos no nosso dia a dia e há poetas que fazem sonetos somente utilizando a regra de ter quatorze versos divididos entre duas quadras e dois tercetos.

Exemplos de sonetos
BARCOS DE PAPEL
Guilherme de Almeida

Quando a chuva cessava e um vento fino
Franzia a tarde tímida e lavada,
Eu saía a brincar, pela calçada,
Nos meus tempos felizes de menino

Fazia, de papel, toda uma armada;
E, estendendo o meu braço pequenino,
Eu soltava os barquinhos, sem destino,
Ao longo das sarjetas, na enxurrada…

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
Que não são barcos de ouro os meus ideais:
São feitos de papel, são como aqueles,

Perfeitamente, exatamente iguais…
— Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!

DEIXA QUE O OLHAR…
Olavo Bilac

Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes, se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
Desse amor, que minh`alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo.

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.

VIA LÁCTEA
Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

SONETO DA FIDELIDADE
Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER
Luís Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

NUA
Pablo Neruda

NUA és tão simples como uma de tuas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua és magra como o trigo nu.

Nua és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no pelo,
nua és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.

Nua és pequena como uma de tuas unhas,
curva, sutil, rosada até que nasça o dia
e te metes no subterrâneo do mundo

como num longo túnel de trajes e trabalhos:
tua claridade se apaga, se veste, se desfolha
e outra vez volta a ser uma mão nua.

VERSOS ÍNTIMOS
Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

A RUA DOS CATAVENTOS
Mario Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

AS POMBAS
Raimundo Correia

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

FANATISMO
Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…”

Referências:
1- https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/portugues/o-que-e-soneto.htm
2- https://www.recantodasletras.com.br/teoria-literaria-sobre-soneto/780316
3- http://descansodasletras.forumeiros.com/t4-o-soneto-alexandrino
4- https://www.pensador.com/frase/NzE3NzM2/
5- https://osecularsoneto.blogspot.com/p/decassilabo-e-alexandrino-os-favoritos.html
6- http://acervo.revistabula.com/posts/web-stuff/10-sonetos-inspiradores

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

8 comentáriosDeixe um comentário

  • Muito bom o texto! Aproveito o tema para divulgar meu trabalho com sonetos: tenho 2 livros publicados (de um projeto de sete livros) para resgate dos sonetos em suas 20 possíveis regras de composição. em cada livro busco propor uma conversa entre os sonetos e outras linguagens da arte. Já foram publicados dois:SonetATO e SonetIMAGEM. (Disponíveis em livrarias e no site http://www.autografia.com.br/loja/). E também escrevo uma coluna quinzenal sobre sonetos, chamada “soneto em pauta” (www.diariodapoesia.com.br/soneto-em-pauta/).
    Sonetem-se!

  • E quem disse que escrever era fácil mas de uma coisa eu sei, com ou sem regra o ato de escrever esvazia a mente, desperta espaço para novas idéias e personifica a todos aqueles que possuem a sensibilidade de sentir e interpretar.

  • Aprendi mais um pouco sobre sonetos, que considero a mais difícil de todas as composições poéticas. Abraço fraterno do amigo e confrade Carlos Reinaldo.

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