VIAGEM V – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

VIAGEM V

Houve aquela viagem que o Júnior fez para o norte de Minas em um projeto Rondon.

Claro que depois de alguns lugares aí pra cima no estado – em direção ao norte – os ônibus caem de qualidade assustadoramente. E lá estava o meu amigo metido numa jardineira a caminho de algum lugar que, certamente, não consta do mapa.

A viagem por essas bandas é daquelas onde se respira tanta poeira no trajeto que, quando se chega, se tossir, sai um tijolo.

Ele tentava dormir um pouco para passar rápido o infortúnio e em uma das mil paradas, entrou um homem velho segurando um pato e se sentou bem a sua frente. A situação já não era muito agradável, mas fazer o  quê?

Outra cochilada, outra parada e entrou uma mulher gorda – gorda “a più non posso” – e coloca no maleiro em cima da cabeça do velho que segurava o pato, a sua bolsa.

Mais algumas chaqualhadas e mais poeira e mais entra e sai de passageiros… De repente, depois de muito balançar, os dois litros de melado de cana, que estavam dentro da bolsa da mulher gorda, expulsaram as rolhas de papel e, como champagne, o melado saiu caindo exatamente na cabeça do velho que soltou o pato. A ave assustada, gritando, voa sobre os outros passageiros, que também alvoroçados, se levantaram também gritando.

 

No meio da balbúrdia, havia aqueles que tentavam segurar o pato, os que tentavam estancar a hemorragia do melado e outros que tentavam levantar a mulher gorda encalhada no assento pequeno no ônibus.

O motorista, vendo tanta algazarra, para o ônibus e quer saber o do ocorrido. Inteirado da situação com cara emburrada diz:

– Que botem pra fora o pato!

E ficou no ar a pergunta: E quem vai pagar o pato?

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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