VIAGENS – I – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

VIAGENS – I

 

A melhor forma de viajar é, sem dúvida, chegar ao Galeão e pegar um avião. Pode ser para qualquer lugar!

Sempre pensava nisso quando tinha que voltar de Conselheiro Lafaiete, onde nasci e moram muitos parentes ainda, fazendo baldeção em Barbacena nos ônibus da ÚTIL e TRANSUR.

Foi assim que aprendi a viajar no banco próximo à janela do ônibus. Não para ver a paisagem que, depois de tantos anos, é a mesma e muda muito pouco. Aliás, na época Walkman, depois Discman com fones no ouvido, óculos escuros, eu nunca prestei atenção no caminho, isso quando não dormia a viagem toda. O problema todo era que a cada cem metros o ônibus parava e desciam dez, subiam sete, desciam oito e subiam doze. Isso acontecia, deve acontecer ainda hoje, porque, eu acredito, nos domingos – dia de minha volta -, todos querem andar de ônibus. Para não ser incomodado: janela!

Era interessante notar a população que entrava e saía do ônibus: todos arrumadinhos, roupa de missa, cabelos emplastrados e penteados. E o sorriso das crianças? Todos com carinhas pintadas de branco, brilho nos olhos e a sensação mais maravilhosa do mundo: vamos viajar! Nem que fossem por dez, quinze minutos.

Uma vez, entrou uma senhora de cabelos brancos e mais dez pessoas, filhos, noras, netos… Mal o ônibus começou a andar e ela, abrindo a bolsa, começou a distribuir sanduíches de mortadela e café, O cheiro da mortadela e do café frio – café frio tem cheiro de café frio –, misturados à minha música erudita me fez abrir os olhos e observar o pique-nique da família feliz. Meus óculos escuros impediram que a velha ao me lado, me visse acordado e me oferecesse o banquete.

Comeram como a um manjar e, terminada a refeição, deram o sinal de parada e desceram todos. Não soube até hoje se entraram no ônibus somente para comer.

Voltei minha atenção para a música e tentei dormir mais um pouco. A irritabilidade começava a se fazer presente e eu sempre pensava no carro que nunca quisera ter.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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