VIAGENS II – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

VIAGENS II

dentaduras

Outra vez, também durante uma volta minha de Conselheiro Lafaiete para Juiz de Fora, o fato foi muito interessante.

Entrei no ônibus na rodoviária e a cidade inteira estava “pegando fogo” com o CARNALAFÁ – carnaval temporão – se bem me lembro, em agosto.

Claro que, como sempre, me sentei à janela e, som ligado, fones de ouvido, óculos escuros, tentava suportar as próximas quatro horas de viagem com a “feliz” baldeação em Barbacena.

À minha frente, sentaram-se duas das quatro mocinhas de dezessete anos mais ou menos, que entraram no ônibus depois de mim. Riam muito e demonstravam que estavam bêbadas, Isso às quatorze horas de um domingo ensolarado.

O ônibus saiu da rodoviária e não andou dez minutos, ainda no centro da cidade, a menina loura, a mais nova do grupo, começou a vomitar. O cheiro de comida azeda e álcool invadiu o ônibus. A amiga deu uma toalha para que nela a outra vomitasse.

Quando o ônibus pegou a última avenida em direção à BR 040, a loura vomitada, mas refeita, resolveu sacudir a toalha na janela e, para espanto de todos, começou a gritar:

– Para o ônibus, para o ônibus!

O auxiliar de viagem veio até elas e a outra do lado explicou:

– Ela vomitou na toalha e sacudiu na janela. A dentadura dela caiu no asfalto.

Contive o riso, mas o ônibus parou e as quatro bêbadas saíram a procura da prótese dentária da garota.

Assustei-me ao ver aquela garota de dentaduras, mas são coisas reais de uma população menos favorecida.

É claro que elas não encontraram a dentadura e muito menos voltaram para o ônibus que teve de parar na garagem para lavar o estrago da bêbada.

Apesar do medo de não conseguir pegar o outro ônibus, consegui completar minha viagem, não sem pena da pobre garota que tão jovem já não tinha nenhum dente.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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