ZERO HORA E UM MINUTO, BOM DIA! – Pão de Canela e Prosa
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ZERO HORA E UM MINUTO, BOM DIA!

0:30 e alguém me deu “Bom dia” no Whatasapp. Eu respondi “Boa noite” e a discussão começou. Como eu ainda não dormi, pra mim é “Boa noite” e vai ser “Boa noite” até o sol raiar e me convencer que é realmente “bom dia”.
Tenho em mim esse dissabor de bons dias fora da hora sempre. Trabalho em um hospital de plantão à noite e nem sempre consigo dormir ou mesmo descansar. Há aqueles que aparecem e adoram lhe dar “Bom dia” como se eles, seguindo a regra, estivessem certíssimos. Não sei quem está certo nesse mundo, muito menos certíssimo.
Desde o tempo de faculdade, quando eu me deitava pra dormir no quarto da república com mais quatro amigos e todos dormiam de roncar rapidamente e eu, ouvindo rádio no fone de ouvido, ouvia o radialista dizer:
_ Zero hora e um minuto, bom dia!
Que “bom dia” nem era dia e muito menos era bom estar ali deitado, com insônia, doido pra dormir, pra poder acordar super cedo e ir pra aula e sem sono. Nem virar muito na cama se pode quando se tem insônia e você dorme com alguém na mesma cama ou no mesmo quarto. E as horas passavam e parecia-me que o sacana radialista me falave:
_ Zero hora e dois minutos, bom dia.
_ Zero hora e três minutos, bom dia.
_ Zero hora, três minutos e um segundo, bom dia!. Bom dia! Bom dia! Bom. Bom. Dia. Dia.
E eu parado, querendo música, querendo dormir, querendo qualquer coisa que não fosse estar ali e ele me dizendo que eu não iria dormir, que eu não merecia dormir naquela noite de insônia.
_ Zero hora, três minutos e dois segundos, bom dia, bobão sem sono.
Hoje depois de alguns anos, muitos, continuo tendo insônia e o povo continua me dando “Bom dia” e eu retrucando que é “Boa noite”, mais por graça que por me importar que hora é o que.
Por isso mesmo que eu cumprimento todo mundo com “Bom dia” não importa a hora. Exceto, é claro no intervalo entre zero hora e o nascer do sol. Mas é só pra ser chato e isso é outra história.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor.

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