A MENINA NA ESCADA – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

A MENINA NA ESCADA

Ele saiu do seu apartamento e viu que havia uma menina sentada na escada que dava para o andar superior. Ele sorriu. Ela sorriu. Ele entrou no elevador e foi para o seu carro e rumou rapidamente para o trabalho.
No dia seguinte, ele saiu do apartamento e ela estava na escada. Ele sorriu como no dia anterior e ela retribuiu o sorriso.
Novamente ele entrou no carro, na garagem, e foi para o trabalho. No caminho pensou na menina e achou estranho que ela estivesse ali. Ele não a conhecia. Não sabia em que apartamento morava. Ele era dono do apartamento 407 há cinco anos e conhecia poucos vizinhos, mas sabia que não havia uma criança como aquela no condomínio. Entrou no prédio onde exercia sua função de engenheiro de uma grande firma e o trabalho absorveu o jovem Aristeu, que estava se dando muito bem no seu primeiro emprego. Aristeu era um rapaz alto e moreno, corpo atlético e se vestia muito bem. Algumas mulheres e alguns homens da firma não deixavam de observar o homem lindo que chegava pontualmente às nove horas da manhã. Muitos colegas de trabalho o levavam na mente e nos sonhos para casa depois do expediente.
Aristeu saiu de casa naquela segunda-feira com tempo. Acordou mais cedo, tomou banho, fez barba, escolheu uma roupa clara para enfrentar o dia de verão – ele não usava terno no trabalho – e se fartou com um ótimo café da manhã que ele mesmo preparava. Apesar de ser um homem lindo, ele era só. Estava sozinho por opção. Nunca mais quis ter alguém na vida depois do último relacionamento.
Ele abriu a porta do apartamento e seu perfume saiu antes dele. Quando ele saiu pela porta, lá estava ela: a menina de todo dia. Ele olhou para ela e mais que lhe sorrir, ousou dar-lhe um “bom dia”.
_ Bom dia – ela respondeu sorrindo.
_ Onde você mora? – Perguntou ele.
_ Aqui – ela respondeu com um gesto vago que ele entendeu que se referia ao prédio.
_ E onde está sua mãe? – Perguntou ele.
_ Não sei. Ela saiu.
_ E seu pai? Sua família?
_ Não sei. Saíram todos – ela sorriu mostrando os dentes alvos contrastando com a pele morena.
_ Como poderemos achá-los? – Perguntou ele.
_ Não sei!
_ Que posso fazer?
_ Me leva para minha mãe – pediu ela.
_ Mas, onde ela está? – Perguntou ele, começando a ficar aflito.
_ Eu posso te levar até onde ela está – respondeu a menina.
Ele se encantou pela menininha que lhe pareceu familiar e que o encantou. Ela sorria como alguém que ele conhecia. Como alguém que ele conhecera. Ela sorria como a última namorada, aquela mulher linda que ele amava tanto, aquela mulher com quem ele queria se casar e passar o resto da vida. Aquela mulher que morreu em um trágico acidente de carro na BR-O40. Ele sentiu um arrepio pelo corpo ao se lembrar da namorada e ao ver a semelhança com a menina.
_ Como poderemos achar sua mãe? – Perguntou ele.
_ Vamos encontrar a mamãe – ela se levantou e ele a seguiu.
Eles foram para a garagem e Aristeu abriu a porta do carro para a menina entrar. Deu a volta e sentou-se atrás do volante. Olhou as horas: seria o primeiro dia que iria se atrasar no trabalho. Avisou pelo celular que iria fazer outra coisa, não explicou o que era e deixou que a passageira do seu carro lhe desse as coordenadas.
Quando se deu conta, estava entrando no Cemitério Parque da Saudade.
_ O que fazemos aqui? Sua mãe trabalha aqui? – Perguntou ele.
Ela riu e mandou que ele seguisse em frente. Aristeu estacionou o carro e a garota pulou do carro. Ele nem viu como ela saiu. Ele saiu também e viu a criança chamando por ele. Ele a seguiu assustado e ambos pararam em frente à sepultura onde Martha, sua ex-namorada, estava enterrada. Ele olhou em volta e não mais viu a menina que o levou até ali. Ele estava atônito.
_ Olá, Aristeu – uma voz o chamou.
Ele se virou atrapalhado na direção daquela voz e viu a menina com vinte e sete anos. Ele viu a mesma boca. Ele viu os mesmos olhos. Ele viu o mesmo cabelo. Ele viu que a menina era, à sua frente, a mulher por quem ele dedicava todo seu amor e fidelidade.
_ Martha! – Exclamou ele. – O que está acontecendo?
_ Eu queria te ver, Aristeu – respondeu ela sorrindo.
_ Mas você morreu… – Balbuciou ele.
_ E você está morrendo por isso também, Aristeu. Você deixou de viver por minha causa.
_ Eu amo você – disse ele com lágrimas nos olhos.
_ Eu amo você, Aristeu. Amo muito – ela sorriu triste.
_ Eu não sei o que fazer. Eu não sei o que fazer – repetiu ele.
_ Viva, Aristeu. Viva! – Ela parecia flutuar onde estava. – Você é jovem e precisa ter alguém.
_ Mas eu só quero você, Martha.
_ Mas não pode ter a mim como antes, Aristeu.
_ Eu… eu…
_ Você veio aqui hoje para se despedir de mim. Não vai mais sofrer pela minha morte. Não vai mais se isolar do mundo porque eu morri.
_ Eu não sei…
_ Sabe sim, Aristeu. Você passou os últimos anos enclausurado e preso em uma lembrança. Agora eu quero que você viva. Eu preciso que você me liberte para eu ir para onde devo ir.
_ E onde você vai?
_ Eu tenho que ir, Aristeu, mas preciso que você me deixe ir.
_ Eu não posso ir também?
_ Ainda não. Na sua hora você irá. Todos irão.
_ Martha, eu vou te encontrar?
_ Um dia, Aristeu, um dia…
Ele chorou. Lágrimas insistiram em cair de seus olhos e ele chorou. Sentiu-se fraco e sentou-se em um banco de cimento perto do túmulo. Enxugou os olhos com um lenço de linho branco e sentiu a mão da amada acariciando seus cabelos. Ficou de olhos fechados por um tempo e de repente, não sentiu mais nada. Abriu os olhos e estava sozinho no cemitério. Martha tinha ido seguir seu caminho? Ele sorriu. Lembrou-se da menina que o visitava e pensou que se tivesse tido uma filha com Martha, ela seria assim. Ele riu!
Levantou-se. Rezou alguma coisa. Pediu a Deus proteção e saiu do cemitério em direção ao trabalho.
_ Uai, Aristeu, você não disse que iria se atrasar? – Perguntou o chefe.
_ Sim, eu passei em um lugar antes – respondeu ele.
_ Mas então, foi muito rápido. Chegou na hora, rapaz.
Aristeu se sentou à sua mesa e começou a trabalhar. Sentiu a presença de uma pessoa perto dele. Olhou na direção onde ela estava e Jacqueline, companheira de trabalho, sorria para ele.
_ Tudo bem, Aristeu? Eu ganhei ingressos para o show do Ney Matogrosso no Cine Teatro Central e queria saber se você gostaria de ir comigo.
_ Eu… Eu… Eu. Claro que sim – respondeu ele com um sorriso. – Será um prazer. Obrigado.
Ele sentiu na mesma hora, uma brisa suave passar por ele e teve certeza que Martha seguiria seu caminho.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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