JUSTIÇA VAMPIRESCA – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

JUSTIÇA VAMPIRESCA

Ele entrou na joalheria e pediu para ver uma aliança de ouro com esmeraldas. A atendente olhou aquele homem másculo, bonito, bem vestido de roupas pretas mostrando um corpo perfeito e sorriu. Ela ficou interessada naquele ser que deveria ter dinheiro para comprar a joalheria toda. Ele olhou para a linda mocinha de cabelos presos na nuca, extremamente sóbrios, a maquiagem perfeita e lhe sorriu. Havia ainda na joalheria um rapaz de quase dois metros de altura e outra moça desprovida de beleza.
O rapaz também estava interessado no possível comprador, não só pela comissão que iria receber daquilo que imaginava que o lindo galã iria comprar, mas também sexualmente. A outra mulher, proprietária da loja, não dava a mínima para o cliente.
Ele quis ver as alianças. Quis ver os anéis de pedras e depois os pingentes. Aline, a moça deslumbrada, mostrava tudo sem tirar os olhos nos olhos do rapaz de barba e cabelos negros.
_ Esse anel é muito bonito – ele disse segurando a jóia na frente dos olhos.
_ É sim, senhor – ela iluminou o rosto com um sorriso.
_ É uma jóia especial – completou o rapaz olhando para o comprador que lhe sorriu de volta.
_ Obrigado, querido – respondeu o comprador.
_ A gente pode dividir, aceita cartão – a mocinha dizia a frase que lhe foi imposta pela patroa.
_ Obrigado – sorriu novamente o visitante. – Eu quero todos.
Os atendentes da loja se assustaram com a fala do homem e olharam todos para aqueles olhos que ficaram vermelhos e inundaram a loja de luz vermelha. Os três ficaram imóveis pela força mental do vampiro. Olhos arregalados, bocas abertas, os três não estavam acreditando. O lindo freguês estava com os olhos vermelhos, o sorriso deixando aparecer as presas imensas que cresceram instantaneamente e ao mesmo tempo pegava todos os objetos de ouro que estavam disponíveis sobre o balcão.
Com ordens mentais fez com que os três atendentes lhe dessem mais jóias do mostruário e dos armários que ele colocava na bolsa que trouxe para o roubo. Eles olhavam para o vampiro sorrindo e apavorados. Não sabiam o que lhes aconteceria.
Michel olhou pela última vez para os três assustados e ordenou que ficassem imóveis por mais uma hora e se esquecessem do que havia acontecido naquele momento na joalheria.
Com a mochila pesada de jóias, saiu joalheria e puxou a porta fechando a loja.
De volta à galeria, olhou em ambos os lados e sentiu um perfume bastante conhecido: Patchuli! Sentiu seu coração acelerar e antes que pudesse fugir daquele lugar se viu imobilizado. Quem poderia imobilizar um vampiro senão outro vampiro? Olhou novamente para um lado e outro e não viu nenhuma pessoa na galeria. Não era normal. Era perto do “dia dos pais” e o comércio estava ficando aberto até mais tarde. Tinha que ter muita gente na galeria. E aquele perfume? Há muito tempo Michel não sentia aquele perfume que ele evitava exalar. Não havia ninguém na galeria. Apenas ele… Ele… Apenas ele e mais três vampiros. Ele olhou nos olhos de Luciano, virou-se para Douglas e quando encarou Augspartem, sentiu que estava acabado.
_ Olá, Michel – cumprimentou Luciano. – Que prazer ver você.
_ Pois é, Luciano – o vampiro novato sorriu tímido. – O que vocês estão fazendo aqui?
_ Estamos aqui para te dar algumas informações, querido – disse Douglas sorrindo.
_ Quem é você? – perguntou o novato.
_ Espera, Luciano, você pode ser severamente punido por isso – interveio Augspartem. – Você criou um vampiro ladrão e não lhe deu as regras de nossa espécie?
_ Desculpa, Frederico. Acho que Michel não entendeu o que eu lhe disse. Ele não deixou seus velhos hábitos.
_ Precisamos resolver isso, Luciano – continuou Douglas.
_ Eu sei – concordou Luciano.
O clima na galeria estava muito tenso. Os três vampiros questionavam o que o vampiro marginal estava fazendo naquele lugar, naquela hora.
_ Eu estava comprando uma jóia – respondeu ele ao questionamento mental.
_ Comprando? – perguntou Augspartem. – Tem um recibo aí?
_ Não. Quer dizer, devo ter… – ele estava incomodado. – Paguei a vista.
_ Michel, deixa de ser idiota – falou alto Luciano.- Você está usando seus poderes para roubar. Isso vem acontecendo há muitos meses e nós estamos de olho em você.
_ Não é verdade – contestou ele. – Eu não roubo ninguém.
_ Infelizmente, Michel, a gente percebe que o fato de uma pessoa receber o privilégio de se tornar um de nós, não muda o caráter da pessoa – interveio Augspartem. – Você é um marginal, Michel. Você hoje tem nossos poderes, mas você não é um de nós.
_ Eu sou um vampiro – gritou Michel.
_ Mas não merece ser – definiu Douglas.
_ Você vai voltar e devolver todas as jóias que você roubou agora – ordenou Luciano.
_ Eu não!
_ Claro que vai – continuou Luciano. – Eu criei você e tenho total controle sobre você. Volte à loja e devolva tudo!
_ Eu não quero – tentou evitar o comando o ladrão.
_ Faça! – ordenou sério Luciano.
Os olhos de Michel estavam vermelhos pela força vampírica, mas também pela raiva de ter que devolver aquele roubo. Ele queria matar aqueles três vampiros que, apesar de serem seus superiores, criadores, não tinham que se intrometer. Não havia o que fazer! Ele respirou fundo e voltou para o interior da loja.
Os três atendentes ainda estavam paralisados e ele deixou sobre o balcão de vidro todo o seu roubo. Estava para sair da loja quando sentiu a presença de Augspartem.
_ Esvazie seus bolsos – ordenou o vampiro milenar. – Todo o dinheiro que tiver aí, coloque esse dinheiro no balcão.
_ Mas, porquê? – perguntou Michel.
_ Porque eu quero – falou baixo e imperativo o líder de todos eles.
Michel enfiou a mão no bolso e deixou sobre a mesa trinta mil reais. Augspartem fez com que os três atendentes dividissem aquele dinheiro e acreditassem que era deles mesmos.
Quando saiu da loja, a galeria era outro lugar. As lojas não existiam mais. Ele estava em um lugar escuro e silencioso. Não identificou onde estava. Era muito assustador mesmo para ele, um vampiro que já roubara muitas pessoas e já matara muita gente. Ele estava muito assustado. Ele sempre ouvira dizer sobre Douglas e sobre o mito Augspartem, o criador de todos, mas nunca tinha visto nenhum deles. Ele foi criado por Luciano que nunca mais o viu depois disso. Frederico Augspartem, o vampiro milenar e criador de todos, sempre preconizou o fato de que a fome do vampiro tem que ser aplacada com sangue humano. Nem sempre há a necessidade de matar, mas nunca um vampiro precisa roubar. Há regras na vida, ou na morte, vampírica?
Ele se viu em um lugar escuro. Havia luz somente naquela cadeira que ele se sentia impelido a se assentar. Havia uma luz fraca sobre ele e ele percebeu que estava nu. Não tinha vergonha de seu corpo, mas estava incomodado de estar naquela situação.
Augspartem foi o primeiro a entrar no seu foco de visão.
_ Acho que temos um problema, Michel. Eu acho inconcebível o que você está fazendo.
_ Mas eu não faço nada – tentou argumentar o vampiro ladrão.
_ Você está roubando e fazendo falcatruas desde a sua criação – continuou o vampiro milenar. – Eu não posso permitir que isso aconteça.
_ Mas eu não matei ninguém – alegou ele.
_ Entenda uma coisa, somos vampiros. Não matamos por brincadeira, mas matamos para nos alimentar, para sobreviver. Você rouba. Você destrói a vida de pessoas que perderam tudo que tinham.
_ Isso não está certo – interveio Douglas. – Você está errado.
_ Eu não te criei para isso – criticou Luciano.
_ Você não é bem vindo entre nós – definiu Augspartem.
_ Eu peço desculpas – disse o vampiro com lágrimas de sangue nos olhos.
_ Não temos como desculpar – declarou Augspartem. – Sinto muito.
Os três vampiros saíram da visão do jovem. Ele estava imobilizado e somente conseguia mexer a cabeça. Ele olhava para a escuridão e não conseguia ver nada. Estava desesperado e incapaz de fazer qualquer coisa diferente de balançar a cabeça de um lado para outro. O ambiente começou a ficar menos escuro. ele olhou para o lado direito e viu que estava em uma sala vazia com um pé direito muito grande e na sala havia grandes janelas abertas em toda volta. O dia foi clareando mais e ele começou a sentir um calor invadindo seu corpo. Olhava pela janela e sentiu seu coração acelerado: Em breve o sol iria aparecer e ele estaria perdido. Os olhos arregalados e o suor brotando na testa. De repente, o sol aparece na montanha ao longe. a luz e a força do raio do sol invadiu a sala e o vampiro soltou um grito de dor. Sua pele começou a pegar fogo e em pouco tempo o corpo do vampiro explodiu inundando a sala em luz.
A luz da explosão do vampiro foi vista por todo o bairro onde estava aquele prédio abandonado. Acharam que era um incêndio, mas quando o corpo de bombeiros chegou, não havia mais fogo e na sala não havia mais nada, não havia explicações entre os humanos.
Para os vampiros a justiça foi feita!

            

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

2 comentáriosDeixe um comentário

  • Muito bom!provando que o mau caráter não mudou. Mesmo diante da transformação. Muito bem colocado o castigo.corto se o mau pela raiz.muito fã desses vampiros!

  • Eu gostei. Parabéns!
    Bastante envolvente e passa rápido um universo próprio.
    Pessoalmente, prefiro que personagens grandões não interajam tão rápido ou fácil com os protagonistas como o vampiro fundador.
    Ex: Se o personagem for invocar um demônio ou um demônio possuir alguém nunca será um dos senhores do inferno como satã, lucífer ou belzebu, mas sempre um menor. Nada de diretoria, só chão de fábrica.
    No entanto, você alcançou um bom padrão profissional e eu acho o conto bem expansível para um romance e uma série de livros.

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