A PIANISTA – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

A PIANISTA

Maria Clara era pianista. Era excelente pianista. Seu nome estava entre os melhores pianistas do mundo.
A casa estava cheia e Maria Clara estava nervosa no camarim, como em toda apresentação. Ela iria brilhar e ela mesma sabia disso. Ela estudou desde a infância para estar naquela posição, naquele momento, naquele teatro famoso no mundo inteiro. Ela ganhou um piano ainda criança. Passaram necessidades, mas ela teve aula no melhor conservatório da cidade. Ela foi levada a estudar e tocar piano desde sempre.
Era uma mulher rica. A música e o piano lhe deram não só fama, mas dinheiro. Através da sua arte ela conheceu o mundo. Já havia se apresentado nos maiores teatros da Ásia, Europa e Estados Unidos.
Ela queria ser padeira. Ela queria fazer pães, fazer bolos, fazer doces. Ela se aventurou uma vez em fazer um pão. Ela gostava de tocar na massa, gostava de por a mão no pão, no corpo do pão, gostava de por a mão no corpo. Gostava do seu corpo. Outro corpo não conhecia. Ela queria ter uma padaria.
O tempo passando e, no camarim, Maria Clara penteava os longos cabelos negros. Iria prendê-los, como sempre, antes de entrar no palco.
Ela queria ser cabeleireira. Queria mexer nos cabelos, cortar, pentear, fazer penteados. Ela queria não ter pelos. Ela gostava de pelos. Achava lindo homem de barba. Achava barba uma expressão de masculinidade e poder. Ela queria não ter pelos. Acabou com todos em várias sessoes de lazer. Ela queria ter um salão de cortar cabelos. Queria poder trabalhar na hora que quisesse.
O organizador do espetáculo lhe avisou que entraria em dez minutos. Ela sorriu. Estava confiante de que seria um grande espetáculo. Ela iria brilhar como sempre.
Pensou várias vezes em ser mãe. Queria se casar e ter filhos. Queria ter uma casa com jardim e quintal. Quem sebe um marido operário que chegasse tarde do trabalho, sujo do serviço braçal. Ela queria fazer o jantar e lavar sua roupa e fazer amor com ele, mesmo que ele não a amasse todos os dias. Ela seria uma mãe feliz, uma dona de casa dedicada ao marido e aos filhos. Nunca teve namorado, como conseguiria um marido.
Prendeu o cabelo e colocou flores com um laço de fitas…
Se ela fosse uma estilista, modista, dona de loja… Quem sabe ela não teria feito roupas para celebridades e estaria hoje entre os grandes nomes da moda mundial. Ela poderia ser rica e famosa fazendo roupas.
Ela poderia ser empresária, ter uma empresa de viagens, ou de vendas de gado, ou de intercâmbio de alunos, ou de uniformes de trabalho. Ela poderia ter uma loja de produtos agropecuários. Poderia vender esterco. Ela queria ser atleta. Queria jogar volei e estar na seleção. Ela queria ser médica, enfermeira, fisioterapeuta. Ela queria…
_ Maria Clara – chamou o organizador do show, – está na hora. A casa está cheia.
Ela se levantou. Suspirou. Um suspiro fundo demonstrando saudade. Saudade de si mesma. Saudade do que poderia ter sido. Saudade!
O show foi perfeito como sempre. Terminou após noventa minutos de grandes clássicos – seu preferido era Rachmaninoff – e se dirigiu à plateia para agradecer.
De frente para a plateia, lágrimas escorriam pela sua face extremamente bem maquiada. Ela estava ali recebendo a confirmação de que o seu trabalho, aquilo que ela se dedicou a vida toda, foi perfeito.
Maria Clara que que queria ser padeira, que queria ser cabeleireira, maquiadora, depiladora, que perdeu a chance de ser mãe, esposa, dona de casa, mulher, a mesma que nunca tocou outro corpo, beijou uma boca, sentiu o contato com uma barba, aquela que nunca soube costurar, ou desenhar uma roupa, jamais sentiu o cheiro de esterco e não sabia administrar nada, ela que nunca fez outra coisa na vida, estava chorando.
Maria Clara estava triste e chorando porque nunca foi nada do que pensou em ser. Nunca lhe foi permitido pensar em outra coisa. Ela era pianista. Estudou piano, partituras, música, fez apresentações desde muito jovem. Ela nunca fez nada que realmente gostasse. Ali estava aos quarenta anos no ápice da carreira e da maior crise existencial que já percebera.
Ela pegou um bouquet de rosas vermelhas que alguém atirou no palco e sorriu. Os holofotes iluminaram seu rosto e a plateia se levantou para aplaudir. Entre aqueles que a viam, muitos invejavam aquele icone da música. A maioria não conhecia Maria Clara a fundo.
Ela saiu do palco e se trancou no camarim por alguns minutos.
Saiu, como sempre, perfeita, para atender a imprensa que queria falar daquele espetáculo perfeito.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

8 comentáriosDeixe um comentário

  • A crise de identidade feminina aos 40 anos é um tema bastante discutido atualmente. Isso porque muitas mulheres nessa idade se questionam sobre o que alcançaram até o momento e o que ainda querem alcançar na vida. Essa reflexão pode gerar uma sensação de desconforto e incerteza, especialmente se a pessoa sentir que ainda não atingiu seus objetivos ou se perceber que seus desejos mudaram ao longo do tempo. No entanto, é importante lembrar que essa crise também pode ser vista como uma oportunidade para o crescimento pessoal e a descoberta de novas paixões e interesses. É comum que aos 40 anos as pessoas tenham mais clareza sobre suas habilidades e valores, o que pode ajudá-las a definir novas metas e projetos para o futuro. Para lidar com a crise de identidade feminina aos 40 anos, é importante ter em mente que cada pessoa tem seu próprio ritmo e que não existe uma fórmula única para o sucesso e a felicidade.

  • Quase sempre queremos mais do que sabemos e queremos ser… Essa inconstância faz parte do ser que é levado a ser tudo o que quer e não quer muitas vzs… Parabéns. Vc foi tão real que ouvi seus lamentos, respiração e música

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