BELO ADORMECIDO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

BELO ADORMECIDO

João Carlos abriu a porta de casa e havia ali uma cesta de café da manhã. Ele ouviu a batida na porta, levantou-se praguejando a alma do infeliz que o acordava naquele feriado que ele pretendia dormir até mais tarde. Vestiu um calção para ocultar a nudez como dormia e abriu a porta da sala. Não havia ninguém, quando ele iria fechar a porta viu a cesta sobre o tapete onde estava escrito “BEM-VINDO”.
_ Porra! Uma cesta de café da manhã – ele pegou a cesta pela alça. – Poderia ter cerveja gelada.
Fechou a porta da casa sem se importar em saber quem lhe trouxera aquele presente e abriu o papel celofane verde que embrulhava tudo. Dentro havia três barras de chocolate. Dois pacotes de biscoito, dois pães diferentes, dois potes de doce de frutas, pacotinhos de café solúvel e chás.
João Carlos, irritado com o fato de ter sido acordado tão cedo, foi para a cozinha. Tirou o calção, jogou na máquina de lavar e sentou-se nu à mesa enquanto esperava que a água que colocara sobre a chama do fogão fervesse. Beliscou de um pacote de biscoitos, achou ótimo. Experimentou o segundo pacote e a água ferveu. Encheu uma xícara de água fumegante e colocou nela o pó preto e cheiroso do café. Gostava de café forte – preferia, é claro, o coado àquele que tinha em mãos.
Tomou o café, não era de comer muito pela manhã ainda mais depois de uma noitada como a do dia anterior. Ele riu. Lembrou-se de estar na boate tomando todas as bebidas que imaginasse e, como sempre, estava rodeado de mulheres. Ele não tinha escrúpulos, beijava a boca de uma garota e, ainda abraçado a ela, beijava sua amiga e estava de olho na próxima feliz vítima de sua baderna. Acabou a festa na casa de duas irmãs gêmeas. Aline e Alice eram suas preferidas em algumas noites do ano. Fez amor com as duas. Se divertiu ao vê-las se beijando e tarde da noite, quase amanhecendo, deixou as duas irmãs bêbadas e exaustas abraçadas dormindo e voltou para casa.
Dirigir bêbado pelas ruas da cidade não era novidade para ele. Chegou em casa, tirou a roupa e dormiu até a maldita cesta de café da manhã interromper seu sono.
O café estava muito bom. Ele bebeu toda a xícara e preparou um pouco mais. Comeu o pacote de biscoitos que abriu primeiro e se sentiu meio tonto.
_ Aquela merda de ontem foi da boa mesmo – ele riu. – Estou bêbado até agora!
Voltou para o quarto e caiu na cama apagado. Não mexia um músculo que não fosse o diafragma que o mantinha respirando. O resto estava totalmente entregue.
Passaram-se dias. Os amigos, os poucos que ele ainda conseguia ter, notaram sua ausência nas noites de gandaia e Denilson decidiu que deveriam procurar por ele. Os três amigos foram à sua casa e o encontraram na mesma posição que caiu na cama há três dias em sono profundo.
Tentaram acordar o rapaz e não conseguiram. Ele não esboçava nenhum movimento ou reflexo. Andaram pela casa. Na cozinha, encontraram a cesta de café da manhã e nada mais. João Carlos era organizado para um boêmio que morava sozinho. Estava tudo em seu lugar exceto a cesta de café da manhã.
Cláudio resolveu também tomar um café e fez o mesmo processo que o amigo dias atrás. Serviu-se e aos amigos do café, comeram biscoitos e esperaram a ambulância que Gilmar chamou.
O médico entrou e examinou o rapaz que só dormia profundamente. Não achou nada diferente hemodinamicamente. Parecia que ele estava apenas dormindo. Mas um sono assim, era um estado de coma e ele tinha que ser internado no CTI do Hospital.
Relutantes, os amigos concordaram com o médico e, após fecharem a casa do adormecido, foram com ele para o hospital.
Realizados os exames, o médico chamou por eles.
_ Está acontecendo algo muito estranho: ele não acorda, mas também não posso afirmar que esteja em coma.
_ Como assim, doutor? – perguntou Cláudio.
_ Ele parece que está sedado, mas no seu sangue a única coisa estranha é álcool e níveis mínimos.
_ Ele bebeu muito, mas já tem três dias – explicou Gilmar.
_ Metabolizou o álcool e era para já ter acordado – definiu o médico.
_ Está em coma? – insistiu Denilson.
_ Não. Ele está dormindo – concluiu o médico.
_ Hum! Brincando de Belo Adormecido? – zombou Gilmar.
_ Pode ser – o médico riu. – Mas é inconsciente.
_ O que podemos fazer? – perguntou Denilson.
_ Esperar – o médico foi direto. – Ele comeu, ou bebeu alguma coisa diferente?
_ Tinha uma cesta de café da manhã na casa dele – falou rápido Cláudio.
_ Mas nós todos comemos e bebemos dela – lembrou Denilson.
_ A cesta não poderia ter veneno – concluiu o médico.
_ Não sei o que pensar – relaxou os braços Gilmar.
Os amigos resolveram ficar de vigília no quarto do belo adormecido. Ele ganhou uma sonda urinária e uma outra nasoentérica para alimentação e mais nada. Não movia um músculo por vontade própria e não se desidratava, não perdia massa muscular, não apresentava feridas na pele. Nada acontecia com aquele corpo imenso e saudável que apenas dormia.
Uma tarde, Denilson estava a postos, cuidando do amigo adormecido quando entrou no quarto uma mulher vestida de preto. A loira de olhos azuis bem marcados pela maquiagem, olhou para o corpo inerte do rapaz e riu. Ela não percebeu que Denilson estava no quarto e quando viu o rapaz voltou sua atenção para ele.
_ Ele é seu amigo? – perguntou ela.
_ É sim! Quem é você? – pergunto ele curioso, mas também interessado na bela mulher que estava no quarto.
_ Eu sou … uma amiga … eu sou…
_ Como é seu nome? – insistiu ele.
_ Carmen – respondeu ela olhando novamente para o corpo inerte de José Carlos.
_ Você conhece ele? – perguntou Denilson.
_ Quisera não ter conhecido esse crápula – quase gritou ela.
_ Mas o que houve? – Denilson se levantou e nesse momento entraram também Gilmar e Cláudio.
_ Ele acabou com a minha vida – ela observou o homem dormindo. – Mas agora ele vai dormir para sempre – ela riu uma risada maligna de puro ódio.
_ O que você fez com ele, maldita? – perguntou Gilmar também exaltado.
_ Ele vai dormir para sempre – novamente a mulher riu. – Eu mandei um café da manhã especial para ele.
_ Mas nós também comemos do café da manhã que você mandou – questionou Cláudio.
_ O feitiço não era para vocês, rapazes – ela riu de novo. – Ainda.
A mulher riu novamente, repetiu o “Ainda” e desapareceu na frente dos rapazes.
Cláudio se benzeu e olhou para os dois amigos que estavam atordoados. Eles já tinham visto alguma coisa semelhante em algum lugar, mas não se lembravam.
_ Deus me livre! – gritou Gilmar. – Ela é uma bruxa?
_ Deve ser, sei lá! – desconjurou também Denilson. – O que será que ela fez com o João Carlos?
_ Não sei – respondeu Cláudio, – mas isso está parecendo magia negra muito feia.
_ O que poderemos fazer? – Perguntou Gilmar.
_ Chamar alguém pra benzer ele? perguntou Denilson.
_ Pode até ser – continuou Cláudio. – Vamos chamar um padre? Uma mãe de santo? Um exorcista?
_ Doidera – desabafou Denilson. – Por que ela fez isso com ele?
_ Deve ser porque ele não quis nada com ela – definiu Claúdio.
_ O cara é foda! Só se mete em merda – concluiu Denilson. – Será que o hospital deixa alguém entrar para benzer ele?
Definiram o que tinham que fazer e Cláudio conhecia uma mãe de santo que resolveu vir ao hospital benzer o dorminhoco. Creusa trouxe mais dois homens consigo para rezarem João Carlos. Estavam vestidos como se vestiam no terreiro. Creusa usava roupas brancas e muitos colares coloridos, um turbante branco emoldurava sua face igualmente branca e bem maquiada. Os dois homens negros que a acompanhavam eram fortes, musculosos e muito bonitos. Os dois irmãos estavam de calça branca, sem camisa, exibindo a musculatura e também os colares coloridos como os de Creusa.
Os amigos do doente ficaram a um canto e viram todo o ritual que os três umbandistas realizaram no quarto. Ninguém entrou para ver o que estava acontecendo ali dentro. Os três rezavam alguma coisa que ninguém conseguia entender e rodavam ao redor da cama.
Quando pararam, estavam suados e exaustos. Creusa procurou pelos amigos e lhes disse.
_ Ele está sob um forte feitiço. Não sei se conseguirei remover essa força.
_ E o que a gente pode fazer? – Perguntou Denilson.
_ Rezem por ele – concluiu ela.
_ O que pode quebrar esse feitiço? – Perguntou Cláudio.
_ Vou tentar descobrir – respondeu Creusa.
Os rapazes já estavam vestidos e se retiraram com a mãe de santo.
_ Se é um feitiço, pode ser quebrado por um beijo – brincou Cláudio.
_ História da Cinderela? Ou da Bela Adormecida? – Gilmar riu.
_ Por que não? – perguntou Denilson.
_ Que mulher não vai querer beijar o garanhão aí? – perguntou Denilson.
_ Vamos começar com nossas amigas? – perguntou Gilmar.
Através das redes sociais, os três amigos postaram a situação do rapaz e convocaram as amigas deles para vir ao hospital e dar um beijo no garanhão adormecido. Em pouco tempo uma fila quilométrica se formou e começaram a entrar e beijar o rapaz, mulheres de todas as idades, raça, credo e profissão. O hospital entrou em situação de alerta, mas todo mundo ali dentro faria qualquer coisa para acordar e ficar livre daquele paciente.
Uma a uma as moças entravam e algumas até deixavam cair uma lágrima. Havia também aquelas que vinham ver, beijavam-no e iam embora felizes por vê-lo naquela situação.
João Carlos era um homem amado e odiado por muita gente pelo mesmo motivo: amor e sexo. Todas queriam ser amadas por ele, ele queria fazer amor com todas. João Carlos não amava ninguém. Houve um grande amor na sua vida e depois que Silvia o deixou, ele nunca mais amou ninguém.
Silvia entrou no quarto. Era a última daquela tarde depois que o hospital resolveu distribuir senha e permitir somente cem beijoqueiras por dia. Ela estava mais velha e os três amigos quase não reconheceram a amada do João Carlos. Ela entrou, parou perto do leito e sofreu pelo amado. Ela ainda o amava muito. Colocou a mão sobre a mão do rapaz e o monitor cardíaco acusou uma taquicardia leve. Ela ao mesmo tempo que segurava uma lágrima que teimava em aparecer nos olhos, beijou os lábios quentes do ex-namorado. Uma aura diferente se instalou no quarto e estabeleceu-se uma energia intensa entre os dois. Silvia se ergueu do beijo e João Carlos mexeu na cama. Ela continuava segurando a sua mão e ele, enfim, abriu os olhos.
Ela sorriu. Ele sorriu.
_ Tudo bem? – perguntou ela.
_ Tudo bem – respondeu ele apertando carinhosamente a mão da mulher que olhava para ele.
_ Que bom.
Os três amigos ao ouvirem que ele estava falando se aproximaram do leito e fizeram uma festa com o rapaz.
_ Que bom que acordou, dorminhoco – quase gritou Denilson.
_ Custou para acordar dessa vez, hem? – brincou Cláudio.
_ Estávamos muito preocupados – continuou Gilmar. – Que bom que acordou.
Nesse momento, entraram no quarto o médico e o enfermeiro do plantão para ver o que estava acontecendo. Eles examinaram João Carlos e constataram que ele estava muito bem.
_ O feitiço foi quebrado – afirmou Denilson para os amigos.
_ Silvia – chamou João Carlos. – Onde está Silvia?
_ Que Silvia? – perguntou Denilson.
_ Silvia, ela estava aqui – afirmou João Carlos. – Vocês não a viram?
_ Qual Silvia? – perguntou Cláudio.
_ A Silvia que foi minha namorada – explicou o recém acordado.
_ A Silvia não esteve aqui, João – disse Gilmar com firmeza.
_ Eu a vi – afirmou o boêmio.
_ Ela não esteve aqui – continuou Gilmar.
_ Esteve, Gilmar. Ela segurou minha mão e me deu um beijo.
_ Silvia não pode ter estado aqui, João – afirmou Gilmar. – Silvia morreu há três anos.
_ Como assim? Eu não soube disso – quase gritou João Carlos.
_ Ela está morta! – continuou Gilmar.
_ Ela esteve aqui – disse decepcionado o rapaz.
Silvia esteve no quarto do amado e quebrou o feitiço que lhe fora imposto. Ela ainda o amava quando morreu deprimida e sozinha pensando que ele não mais a queria. Ele viveu uma vida desregrada achando que ela não mais o amava.
A bruxa que o enfeitiçou, rodava em volta do seu caldeirão e, morta de raiva ao saber que o feitiço foi quebrado, se pôs a prepar outras investidas contra o homem que tanto odiava.
Dias mais tarde, completamente recuperado, João Carlos foi ao cemitério levar flores ao túmulo da amada de toda sua vida. Parou perto da lápide e chorou. Ao longe, os três amigos fieis sofriam com a decepção do rapaz, mas estavam felizes por vê-lo de volta.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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