CENSURADO! – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

CENSURADO!

Quando eu comecei a ler – não sei ao certo quando -, me tornei um leitor voraz e lia tudo o que me dessem para ler. Tive, na época, excelentes professores e um método de ensino muito bom, apesar de sempre ter estudado em escola pública. Eu digo que fui alfabetizado com histórias em quadrinhos, na época Walt Disney. Minha mãe lia para mim e logo que comecei a ler, lia desesperadamente.
Isso se deu, talvez, porque meu maior medo era chegar na vida adulta e ser uma pessoa sem cultura geral. Tenho hoje um conhecimento grande de muita coisa, médio de outras, mas no cômputo geral, tenho uma vasta cultura geral.
Voltando à literatura de minha infância e pré-adolescência, eu lia tudo. A escola mandava que nós lêssemos um livro a cada dois meses. Eu lia o livro indicado e vários outros do mesmo autor. E assim li todo José de Alencar, Machado de Assis, Érico Veríssimo e tantos outros autores nacionais. Eu não tinha uma biblioteca pessoal, usava a do Colégio e a Municipal mesmo. Eu estava sempre com um livro nas mãos. Era um excelente aluno na Escola Estadual Narciso de Queirós, onde entrei na quinta série e só saí depois do ensino médio – na época segundo grau.
Na quinta ou sexta série, não sei precisar quando, a professora sugeriu que a leitura fosse “O MEU PÉ DE LARANJA LIMA” do José Mauro de Vasconcelos. Li de imediato e nas conversas na sala ouvi a professora dizer que dele não poderíamos ler “AS CONFISSÕES DE FREI ABÓBORA”. Era inadequado para nossa idade.
Juro que eu passei alguns dias sem dormir pensando no livro e em como conseguir lê-lo.
Meus pais não tinham mais que ensino primário, não era possível estudar muito pela sua condição financeira e escolas na época em que eles viveram, mas tinham uma visão muito grande sobre o que ensinar aos filhos. O que fosse proibido, por razões morais ou até mesmo religiosas era debatido e nos orientavam porque deveria ter essa ou aquela restrição.
Enfim, ganhei o livro e devorei as páginas na rapidez que eu lia para saber sobre a masturbação e o abuso infantil relatados no livro. Oh! Pecado! Que absurdo! Como uma criança pode ler isso? Li, não era tão criança e isso me esclareceu sobre abusos e diversas outras coisas que evitei que acontecessem comigo. O livro proibido me ajudou a entender um monte de coisas. Depois eu li CASSANDRA RIOS, li NELSON RODRIGUES, li livros que tinham sexo, drogas, diversidade, loucura e tudo isso serviu para compor meu caráter e minha personalidade atual.
Existiam na época dois livros extremamente cerceadores que os pais faziam os filhos lerem: “O MOÇO E SEUS PROBLEMAS” e “A MOÇA E SEUS PROBLEMAS”. Os assuntos discutidos iam de masturbação de ambos os gêneros, como a menstruação da menina, o aparelho genital de um e de outro e diversas outras coisas. Se o livro não fosse discutido pelos pais, que geralmente não o faziam por vergonha principalmente de sexo, seria um meio de criar uma neurose e uma cadeia mental no pequeno leitor. Tudo que o livro relatava era feio e pecaminoso.
Esses dois livros jamais foram censurados. Falavam a linguagem do opressor.
Tivemos uma censura terrível durante a ditadura militar e TUDO ERA PROIBIDO. Tudo, claro, que falasse contra o governo. Resultado da censura? Um milhão de obras de arte maravilhosas e muitos artistas fenomenais como Chico Buarque, Caetano, cantores, jornalistas, escritores, arquitetos, enfim, a arte que foi a mais tolhida, floresceu com muito mais força. A arte é a força da vida!
Na literatura, tivemos outro exemplo terrível de censura na Bienal do livro do Rio de 2019 quando o prefeito da cidade mandou recolher determinado livro porque trazia um beijo gay na capa. A capa do livro iria transformar meninos e meninas heterossexuais em gays, na cabeça do político. A prefeitura mandou recolher o livro “VINGADORES, A CRUZADA PARA CRIANÇAS” por ter conteúdo sexual impróprio para crianças. O livro estava sendo vendido em vários setores da Bienal e esgotou em menos de meia hora.
Um ato que acabou com essa proibição ridícula foi a compra de mais de dez mil obras com temática LGBTQIA+ pelo YouTuber Felipe Neto que mandou embrulhar em plástico preto com o aviso: ‘livro impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas”. Esse pacote foi distribuído de graça na entrada da Bienal.
O tiro da censura sempre sai pela culatra.
Já tivemos censuras em escolas da rede particular em Juiz de Fora que programaram uma feira literária, que não deu certo, onde somente os livros infantis da LEIAJF tinham acesso, exceto o livro “Leco e seus amigos monstrinhos”, proibido porque falava de monstro. Nota importante: o livro da escritora Alice Gervason foi escrito por ela e pelos netos pequenos. Nesse colégio não era permitido falar nem do folclore nacional. Nada era permitido. A Feira não saiu do papel.
Importante ressaltar aqui que toda criancinha hoje, tem celular com acesso a Internet. É uma coisa ótima para dar sossego aos pais que não sabem o que os filhos estão vendo naquele aparelho. A Internet é fundamental nos dias de hoje, mas tem muita coisa que essas crianças não devem ver. Essas crianças sabem burlar as restrições que os pais julgam saber impor. Mas…
O motivo de tanto assunto contra a censura é o fato inadmissível de censura a um livro do brilhante mestre ZIRALDO, “O MENINO MARROM” por escolas da rede pública da cidade de Conselheiro Lafaiete – Importante deixar claro: minha cidade Natal.
A polêmica foi tanta que a cidade, hoje classificada como a décima melhor cidade para se viver no estado, foi assunto do Jornal Nacional. Na reportagem, entrevistados sobre a censura ao livro não sabiam o que estavam falando.
O que estamos vivendo na atualidade? Belchior disse anos atrás “tudo, tudo é proibido, até beijar você no escuro do cinema”. Será que vamos permitir que a censura volte a níveis insuportáveis simplesmente porque pessoas incultas, arcaicas e preconceituosas acham que têm razão?
Para o maravilhoso ZIRALDO, isso é ótimo: vai divulgar ainda mais sua grande obra. Para nossas crianças é preocupante. Vemos a cada dia menor interesse e conhecimento pela cultura geral e são essas “pessoinhas” que estão vindo por aí, que governarão nosso país.
O que está acontecendo no país inteiro é inaceitável.
NÃO À CENSURA!

            

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

3 comentáriosDeixe um comentário

  • Sou professora da rede municipal de Conselheiro Lafaiete. E estou perplexa com a situação. Censurar Ziraldo é impensável…cresci lendo suas histórias. E me preocupa muito o futuro dessas pessoinhas que vem por aí. Aproveito o espaço para tietar…rsrs…Artur Laizo sou leitora dos seus livros.

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