SAUDADE DO HOSPITAL ESCOLA – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

SAUDADE DO HOSPITAL ESCOLA

Ontem, eu estava no consultório e recebi a Maria Júlia. Foi um prazer imenso receber a técnica de enfermagem que trabalhava no Hospital Universitário quando em fiz residência. Apesar de ter sido no século passado, parece que foi outro dia mesmo.
Conversamos sobre várias coisas e várias lembranças durante a consulta e em dado momento ela, aposentada há muitos anos, falou:
_ Que saudade do Hospital Escola.
Hospital Escola, como nós o chamávamos na época, era o único.
_ Tenho também – confessei. – Nunca mais fui lá.
_ Tá tão diferente atualmente – relatou ela.
_ Imagino que sim – concordei. – Você sabe que nunca mais é a mesma coisa. O tempo passa, nós passamos e a coisa fica lá. Tudo vive do jeito que vivemos somente na nossa lembrança. A vida continua, nós passamos.
_ É assim mesmo, doutor. Hoje, não tem mais ninguém da nossa época lá.
Terminada a consulta, continuei pensando naquilo que falei: a gente passa! A gente passa e o momento é eterno na nossa mente, mas tudo muda e todos nós deixamos de ser importantes no momento atual, naquele lugar onde não estamos mais. Não fazemos falta.
Evaldo Costa, escritor, professor, disse que “Somos apenas uma gota d’água no imenso oceano da vida”. Se observarmos bem, no nosso trajeto desde o nascimento até a morte, passamos e vivemos situações próprias. Primeiro, a família, pais, avós, irmãos e a convivência naquele núcleo importante, naquela época. Os chefes da familia passam, o núcleo principal deixa de existir quando novos núcleos surgem e tudo muda. Passamos pela escola nos diversos graus e com tantas pessoas – algumas serão amigas para sempre, outras nunca mais ouviremos falar.
A Escola é uma época maravilhosa na nossa vida. Eu tenho saudades do Grupo Escolar Professor Manuel Lino – que não existe mais nem a casa -, da Escola Estadual Narciso de Queirós, da UFJF, do Hospital Escola. Saudade dos lugares? Não sei! A maioria dos lugares estão lá. Ir visitar não trará as mesmas situações. Saudade da época que lá vivi. Vou chegar em um desses locais como o médico escritor que faz tantas coisas, que passou por ali, mas que não pertence mais àquela instituição nos dias atuais. Serei só história. Tomara que seja lembrado na história desses lugares.
A gente passa. A gente contribui para que isso ou aquilo aconteça, funcione bem, mas a gente passa.
Dizem que “ninguém é insubstituível”. Não é! Sugerem substituir Chico Anísio, sugiro substituir Beethoven, não são substituíveis, são história cada um no seu espaço e época. Importante não é ser insubstituível, seremos todos substituídos, importante é ser difícil de substituir.
Seria legal ir ao Hospital Escola hoje em dia? Não sei! Não faço parte do Corpo Clínico e não trabalho naquele lugar. Não conheço a maioria das pessoas que ali trabalham, talvez um ou outro residente que tenha sido meu aluno na faculdade, não sei nem onde estão localizadas as diversas áreas daquele nosocômio. Ninguém lá me conhece e eu não faço parte do dia a dia deles
Saudade do Hospital Escola – Saudade da época que trabalhei no HU. Saudade de época, de várias épocas, de muitas épocas. Acho complicado aceitar isso, mas Ibrahim Sued tinha razão ao dizer: “Os cães ladram e a caravana passa”.
Nós vamos passar! Nós estamos passando!

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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