INSETOS – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

INSETOS

Ele odiava insetos. Queria mesmo destruir todos os insetos do mundo. Quando pequeno, ao dizer sua vontade para seus parentes, ainda tentaram convencê-lo que não poderia fazer isso. “Como você pode querer acabar com as abelhas? Vai ficar sem mel”, disse uma tia gorda e rabugenta. “Vai acabar com o bicho-da-seda e vamos ficar sem seda?” Conjecturou a prima fútil e feia.
Ele se convenceu na época que não poderia acabar com os insetos por causa do mel e da seda, mas continuou odiando os insetos.
Cresceu e se tornou um homem sério, depois um velho rabugento como a tia gorda de sua infância, mas ao contrário dela e da prima solteirona e muito mais feia, ele odiava mel e nunca usara uma camisa sequer de seda. “Eu devia tê-los matado todos!” Insistia em pensar sobre os insetos.
Naquela noite, ao deitar, observou uma cigarra presa na parede perto da porta do seu quarto. Tentou matá-la, ela voou, se esquivou e se escondeu. Ele fechou a porta do quarto e se deitou. Não demorou a pegar no sono, porém foi acordado com o canto da cigarra do lado de fora do seu quarto. Ele praguejou e pensou em matar o inseto maldito. Mas ele teve medo de sair do seu quarto e o monstro entrar pela porta e se esconder na sua cama. Ele tentou aguentar o barulho e cobriu os ouvidos. O som pareceu-lhe maior e ele tentou mais uma vez se livrar daquele ruído escondendo-se nas cobertas. Não deu resultado e o som aumentou mais. Ouviu outro som e percebeu que à cigarra, juntou-se também um grilo. Ou era mais de uma cigarra e um monte de grilos? Deveria ter mais de um de cada daqueles barulhentos insetos. O bater de asas chamou sua atenção e ele viu que mariposas voavam perto da lâmpada que ele deixava acesa sobre uma mesinha afastada da cama. Havia ali uma centena de mariposas. O bater de asas daqueles bichos era insuportável. Ele pensou em acender a luz do quarto e tentar afastar os invasores, mas cada coisa que pensava em fazer, mais ruídos ouvia e outros insetos ele percebia em seu quarto. Começou a ouvir um som de serra e imaginou que sua cama de madeira maciça estava sendo devorada por cupins. Suas pernas começaram a pinicar como se nelas andassem aranhas e outros aracnídeos, ele pode até sentir no corpo um escorpião. Para ele eram todos insetos saídos do inferno, obra do demônio. Só poderia ser o capeta para criar tanto ser desprezível. Um par de asas levou um desses insetos de um lado para o outro do quarto e ele identificou uma barata. Baratas voam! “Malditos!” Gritou ele. “Deixem-me em paz!” Mas os insetos e outros bichos aumentaram o som que produziam e parecia que todos queriam competir com as cigarras na sala do lado de fora do quarto.
Ele se levantou. Ao sacudir a coberta que usava, caíram vários insetos e outros tantos voaram pelo quarto.
Ele gritou desesperado. Abriu a porta do quarto e viu que sua sala estava repleta de cigarras, grilos, baratas, pulgas, gafanhotos, borboletas, mariposas e bruxas. Ele tinha pavor daquelas mariposas enormes e tenebrosas. Ele não sabia o que fazer e continuou gritando. Tentou andar e seu pé descalço esmagou alguns insetos rasteiros sujando tudo com aquela gosma verde. Ele então se desesperou e começou a correr dentro de casa e o barulho que ele fazia era maior que o dos insetos, mas quanto mais barulho ele fazia mais insetos apareciam e em dado momento ele começou a se sentir envolvido em fios de seda. Ou seria teia de aranha? Ele odiava as aranhas e odiava ter contato com suas teias. Seu estômago revirou e ele vomitou muito. O líquido que saia de sua boca vindo do seu interior era verde como o líquido que se espalhava pelo chão quando ele pisava nos monstros que o atormentavam. Existia dentro dele insetos como aqueles que o atacavam? Essa era sua dúvida. Ele sentia que em todo lugar do seu corpo, em cada milímetro de sua pele, havia um bicho nojento sugando seu sangue, sua energia, sua vida. Ele precisava resolver aquilo. Precisava tirar de dentro dele aqueles malditos invasores. Correu para a cozinha. A cozinha também estava cheia de insetos. Ele sabia que todos esses bichos, esses seres malditos, sugiam do nada. Saiam das paredes, dos alimentos, de qualquer lugar até mesmo dele.
Ele precisava acabar com isso. Pegou uma faca afiada e enfiou no seu abdôme na altura do estômago. Observou aquele corte profundo onde saia muito sangue e pode observar também a saída de alguns grilos, cigarras e gafanhotos. Eles pareciam conversar e estavam todos sujos com seu sangue. Aquele sangue que não parava de jorrar daquele corte profundo. Aquele sangue vermelho que se misturava com o sangue verde dos insetos e lhe davam mais nojo. Mas não havia como vomitar outra vez. Sua visão foi se escurecendo e ele se viu soterrado por tantos insetos. Não havia mais força para gritar, nem voz, não havia mais dor nas picadas pelo corpo, não havia mais nada. Só escuridão.
No dia seguinte, a empregada ao chegar, encontro seu corpo seco, sem uma única gota de sangue, sem um músculo, sem vida, no chão da cozinha com a faca enfiada naquela pele que envolvia somente um esqueleto ressequido.

            

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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