O FORNO DE MICROONDAS – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

O FORNO DE MICROONDAS

_ Eu quero um forno de microondas – pediu o comprador.
_ Esse aqui é o melhor – respondeu a vendedora.
_ Quero um prático e barato – explicou o homem de terno cinza.
_ Mas não precisa ser tão barato. O senhor pode comprar no crediário a perder de vista – sorriu a mocinha.
_ Quero à vista, minha filha – definiu o homem.
_ Não! O senhor não deve fazer isso – a vendedora estava assustada
_ Como não, senhorita? – questionou o homem.
_ A loja tem as melhores formas de crediário para o senhor comprar o que quiser. “É o plano que cabe no seu bolso” – sorriu ela repetindo o slogan da loja.
_ Não quero fazer crediário, senhorita.
_ Mas tem que fazer! É o melhor!
_ Não gosto de ter conta para pagar.
_ Mas que absurdo! Tem que ter crediário. O senhor nunca sentiu o prazer de terminar de pagar um carnê.
_ Nunca tive!
_ Tem que ter.
_ Não tem!
_ Tem sim, bobo – ela percebeu que estava tratando o cliente de forma íntima, mas continuou, – tem que ter um monte de carnê e perder o rumo e ficar doidinho no final do mês tentando pagar tudo e nem sempre conseguir.
_ Não quero!
_ Quer sim! Vou te mostrar todos os jeitos de pagar o produto. O senhor… você vai amar – ela estava empolgada.
_ Não quero, senhorita. Quero um microondas barato e vou pagar a vista.
_ Não vai não! Não vou deixar você cometer uma loucura dessas. Tem que comprar um microondas caro!
_ Não quero!
_ Quer sim! Esse aqui, ó – ela mostrou um aparelho de última geração que contava a história do frango enquanto o assava – é ótimo.
_ Minha filha, entenda: Eu quero um microondas barato porque hoje em dia, é tudo porcaria e estraga fácil. Não interessa se é caro ou barato, estraga.
_ Não estraga!
_ Estraga e não tem conserto!
_ Olha esse microondas – insistiu ela. – Esse aqui até toca música. Pega até rádio estrangeira.
_ Mas eu não quero um microondas que pega rádio FM ou qualquer outra rádio ou que conta a história do frango esquartejado sofrendo na laje do inferno. Eu quero um microondas barato – exasperou-se ele.
_ Não quer!
_ Quero sim!
_ Então não tem!
_ Como assim?
_ Aqui só tem microondas caro que assa frango, faz pudim e pega rádio de qualquer lugar do mundo.
_ Não quero!
_ Mas tem que querer!
_ Quero falar com o gerente!
_ Vou chamar
_ Pois não, senhor – cumprimentou o gerente.
_ Senhor, eu quero um microondas barato, quero pagar a vista e essa senhorita não entendeu isso. Quer me vender um microondas que também conta história e pega FM.
_ Mas esse não é dos melhores – interveio o gerentes. – Se o senhor fizer um crediário em vinte vezes, além de levar o microondas-rádio-teatro vai ganhar essa fritadeira portátil que além de fritar asas de frango serve para molhar as plantas do jardim.
O gerente não viu mais nada depois que recebeu uma fritadeirada – que molha plantas no jardim – na cara em um golpe de raiva do comprador.
_ Se o senhor não quer a fritadeira, eu posso trocar – gritou a vendedora sem saber se acudia o gerente desmaiado ou se tentava não perder o cliente.
_ E o microondas? – ainda ousou gritar vendo o homem sair da loja.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quase quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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