QUE VENHA O SÁBADO! – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

QUE VENHA O SÁBADO!

O dia começou bem!
Eu de plantão no décimo terceiro andar – CTI – subi para o Centro Cirúrgico – décimo quarto – para operar um paciente às 7:30. O mesmo conseguiu se internar às 8:30 e eu comecei a operar às 9:40, uma cirurgia que durou quarenta minutos, mas precisei de mais quarenta para acessar o sistema, evoluir, descrever a cirurgia e prescrever. Desci para o décimo terceiro para pegar a minha mochila e só então me dei conta que me esqueci de bater o ponto às 7:00. Bati, enfim e saí correndo para outro hospital para operar o paciente que eu havia marcado para as 9:30 e que só consegui começar a operar às 11:15. Era um paciente obeso o que atrasou o procedimento e eu terminei às 12:30. Descrevi a cirurgia, evolui e fui ao segundo andar dar alta na paciente que operei ontem a quarta recidiva de hérnia inguinal. Depois de tanta festa da paciente que iria embora e eu que iria almoçar, entrei no carro até com um pouco de náusea de fome e estava eu no trânsito caótico da cidade. Uma chuva fina complicava tudo ao redor.
Quando estava a três quadras da minha casa, melhor ainda, do almoço, o telefone tocou e a paciente a quem dei alta me disse que eu não havia carimbado seu atestado. Assinatura de médico hoje em dia não vale nada sem o carimbo. Respondi imediatamente que voltaria ao hospital. Imediatamente é força de expressão já que de onde eu estava deveria fazer mil voltas para chegar ao lugar porque eu estava de carro – a pé seria muito mais rápido. Voltei ao hospital, carimbei o atestado e voltei para o carro já pensando na janta de tanta fome. Entrei em casa, banho, troquei de roupa – vesti a camisa imensa que tem mais de quinze anos que uso é nem mais cor tem -, sentei-me à mesa para almoçar e o telefone tocou: era o hospital. Não sei se perceberam acima quando eu disse que evolui e descrevi a cirurgia do segundo hospital e… só! Eu esqueci de fazer a prescrição de medicamentos que deveriam ser administrados ao moço. Sem pensar – o dia, realmente não merecia um pensamento -, troquei de roupas, entrei no carro e voltei ao hospital para fazer a prescrição do paciente. Trânsito de quase uma hora para um ato de cinco minutos. Voltei pra casa com vontade de rezar pela minha sexta-feira. Aliás, brinquei com isso no hospital e uma técnica de enfermagem me disse: – Muito bem, doutor, sexta-feira é dia de macumba. A sexta-feira ainda está no meio. Tudo pode acontecer!
Não sei o que fazer! Vou pedir ajuda espiritual para vencer esse dia e, de preferência, não esquecer de, à noite, tomar meu vinho.
Que venha o sábado!

Sobre o autor Ver todas as postagens

Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

2 comentáriosDeixe um comentário

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados *