SETEMBRO AMARELO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

SETEMBRO AMARELO

Ele parou! Olhou o mar bravio e suspirou. Estava triste, peito vazio, cabeça cheia, dor aguda, tristeza crônica, sempre a mesma indecisão. Ele não sabia o que fazer com tão pouca esperança e tanta desilusão. O mundo não olhava para ele, como aquele mar bravio naquela noite, não percebia o que ele queria fazer. Não dava mais para continuar!
A vida estava puxando seu tapete e ele Insistia em não cair. Se caísse – ele sabia – nunca mais se levantaria. Mas quem sabe não seria a hora de cair. Quem sabe não seria a hora de se jogar em um abismo que há muito tempo já retribuía o seu olhar e, pior, o seu desejo de se lançar nas trevas e não acordar nunca mais.
O dinheiro acabou – aliás, sempre faltou. Comida – vivia de restos e odiava o gosto amargo daqueles troços que catava no lixo. Há quanto tempo vestia a mesma roupa? Há quanto tempo não tomava um banho? Há quanto tempo não tomava um trago de uma boa cachaça? Há quanto tempo não fazia amor? Há quanto tempo não amava e não era amado por ninguém?
Ele perdeu! Perdeu na vida qualquer apoio. Perdeu seu suporte, perdeu sua estrutura de vida quando sua família morreu. Ele tinha uma mulher que amava e dois filhos lindos. Parou para enxugar uma lágrima e voltou a olhar o mar. Havia algo naquele mundo de água escura pela noite, barulhenta pela quebra da onda, cheirando a peixe, a lixo, a maresia. Por que as praias são tão maltratadas e ficam imundas?
Não sabia mais o que fazer. Não tinha emprego e nem condições de arrumar outro trabalho. Não tinha mais casa. Não tinha mais roupas. Não tinha mais vida. Como poderia arrumar um emprego? Como poderia recomeçar?
Ficou parado olhando o mar. Ficou em silêncio ouvindo o mar. Parou de se mexer respirando o mar.
E o mar, indiferente a tudo, olhava aquele morto-vivo parado na praia buscando uma solução. Será que haveria solução?

Muitas vezes, as pessoas se encontram no fundo do poço e não conseguem achar a solução. Muitas vezes, não percebemos que uma pessoa do nosso lado, um amigo, um irmão se encontra perdido sem conseguir encontrar a luz no fim do túnel e a gente acaba por perder esse ente querido.

Devemos ficar atentos não só em setembro.
Setembro Amarelo é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015. O mês de setembro foi escolhido para a campanha porque, desde 2003, o dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Ele acordou na praia com o sol lhe dando “bom dia”. Durante a noite, anjos e orixás que ele nem supunha existir, vieram ajudá-lo. Ele abriu os olhos, sorriu e resolveu começar de novo. Um bom banho de mar ajudaria bastante. Tirou a roupa rasgada e suja e mergulhou nas águas salgadas a sua frente. Precisava lavar o corpo e a alma.
Começaria de novo!

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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