CARRO COM DEFEITO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

CARRO COM DEFEITO

Estava com o meu carro em uma mecânica em um bairro afastado do centro, engastalhado na vida
Acho que o carro está acompanhando o clima: tá calor – esquentou.
Desde três dias atrás uma luz vermelha, parecendo um barquinho – um veleiro talvez -, acendeu no painel e, se olhar direito dá pra ver um termômetro. Ih! Tá quente. Opiniões mis. Alguns me disseram que eu iria ficar parado nas ruas da cidade, outros até que o carro iria explodir. Cheguei a imaginar uma enorme cratera na Avenida Rio Branco em Juiz de Fora.
Primeiramente, levei o carro na concessionária onde faço revisão anual.
O carro chegou lá fervendo e acho que era de raiva. O mocinho que me atendeu me disse que poderia ser um monte de coisas. De falta de água a motor quase fundido. Mandou eu conversar com uma recepcionista gentil e sorridente que me pediu 3 mil (3 K) reais para fazer diagnóstico. Fazer o diagnóstico!
Eu cobro bem mais barato – vou subir o preço da minha consulta.
Aí, eu disse que era muito caro e ela disse que achava muito caro também. Rimos e eu decidi não fazer lá o “diagnóstico”.
O empregado da empresa, bastante atencioso também, me orientou a procurar a tal mecânica no bairro que eu passo de quando em vez. Joguei no GPS, errei o caminho duas vezes, como de prache, mas lá cheguei.
Cheguei na oficina e o moço me disse que teria vaga para fazer o “diagnóstico” no dia 12/12, daqui a vinte dias. Muito bom! Se tiver conserto mais x dias. Doidera!
De repente, eu liguei para o Idevanir* – meu anjo da guarda automotivo – e ele mandou trazer o carro pra casa e vai guinchar ele na segunda-feira para levar para outro mecânico nosso conhecido. Conclusão: Fim de semana SEM CARRO!
Não sei nem como ir à padaria aqui do lado. Na realidade, eu sempre disse que gosto tanto de avião que até mesmo à padaria, se eu pudesse, iria de avião.
Enfim, o dia a dia corrompe, a correria muda tudo, a vida hoje é prática e precisamos nos locomover.
Eu demorei muito para ter habilitação e comprar meu primeiro carro, mas hoje ele é fundamental.
Eu realmente não entendo nada de carro. Estou até me lembrando quando estava na Autoescola e morava sozinho no Granbery** e atendi alguém à porta. O homem sorridente me perguntou:
_ Quer comprar um Gol?
Eu olhei para suas mãos, estavam vazias, olhei de volta para ele e ele voltou a me falar:
_ Venha ver o Gol.
Só aí eu entendi que deveria ser um carro. E era! Saímos à rua e lá estava o “Gol”.
Confesso que até hoje, eu tenho dificuldades em diferenciar carros, para mim existem carros e fusquinha. Não era um fusquinha, mas um Gol branco. Olhei para o veículo e vi que tinha coisas que um carro tem: rodas, portas etc. Aí, o vendedor do Gol fez uma grande besteira: abriu o capô e, cheio de ênfase me mostrou:
_ Olha o motor.
Confesso que olhei. Tentei achar no meio daquele monte de peças, canos, fios todos empoeirados e sujos, onde estariam fígado, intestinos e coisas que conheço bem. Não tinha como comprar o Gol na época, e fiquei mais um tempo sem carro.
Na atualidade, passamos pela pandemia e era muito mais seguro andar de carro do que no meio de um bando de gente negacionista sem máscaras. Passei a usar o carro para tudo.
Agora o pobrezinho vai ser internado para um “diagnóstico” e tratamento.
De repente, depois de cinco anos me servindo fielmente, está na hora de pensar em carro novo.
Quem sabe?

* Idevanir – responsável pelo Seguro do meu carro;
** Granbery – bairro de Juiz de Fora.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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