OPALA PRETO – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

OPALA PRETO

Ele queria apenas encher seu tempo e ver a cidade a noite. Ele gostava da noite. Acabara de acordar e estava ali, todo vestido de preto, à frente do volante daquele Opala que era seu divertimento já por décadas.
A Avenida Rio Branco estava congestionada. As ruas que cruzavam a terceira maior avenida reta da América Latina* também sofriam com esse trânsito tumultuado nessa hora de início da noite. O sol se pôs há menos de uma hora e esse momento era o ponto forte no trânsito de qualquer cidade. Muitos trabalhadores do comércio, alunos e professores, pessoas que viviam no burburinho da cidade procurando chegar em casa e ter o merecido descanso.
Douglas gostava de dirigir nas ruas cheias de Juiz de Fora. Gostava de ouvir boa música e o rádio estava sempre ligado na Rádio Itatiaia.
Seguindo pela Garganta do Dilermando, deixou um pouco esse trânsito caótico e se lembrou da MANSÃO DO RIO VERMELHO**. Há muito tempo não visitava os amigos naquela casa magnífica e não conversava com Frederich Augspartem ou Jaime. Sabia que eles estavam bem. Qualquer dia desses, convidaria Goretti para visitar São Luiz. No momento, Douglas seguia pela Rua Paracatu sem um destino específico. Apenas estava se divertindo com uma das coisas que mais gostava: dirigir. O carro, ano setenta, chamava atenção por onde passava. A máquina da Chevrolet foi comercializada no Brasil entre 1968 e 1992. Douglas adquiriu um dos primeiros que chegou a Juiz de Fora e o mantém até hoje como se estivesse saindo de fábrica
Deu a volta e passou pelo Bairro Bandeirantes. Entrou por uma rua que dava acesso ao Bairro Quintas da Avenida e achou muito estranho o local estar deserto. Não havia ninguém nas ruas. Era outono, mas nem estava tão frio que impedisse às pessoas de saírem de casa. Dirigiu pelo bairro e, de repente, notou que estava sendo seguido por dois motoqueiros.
Ele riu. A luz dos postes fez brilhar seus dentes fortes e suas presas alongadas. Hora de brincar, pensou ele.
Deixou-se ser ultrapassado pelos dois rapazes e logo depois os ultrapassou e repetiram a brincadeira por algum tempo. Douglas sempre se preocupava em não incomodar as pessoas que moravam na cidade. Faziam uma dança das máquinas, mas o único ruído era o das motos. O Opala preto deslizava pelas ruas de blocos de cimento em silêncio.
Na rua principal do bairro, ele ultrapassou os motoqueiros e parou o carro na frente da Igreja de Santa Filomena e observou que os dois bandidos também pararam acerca de quinhentos metros, mais abaixo.
Douglas saiu do carro e bateu à porta. Parou de frente para os dois motoqueiros. Sua imagem para quem subisse a rua era fantástica: um homem forte, musculoso sem exageros, másculo, vestido de roupas pretas e com cabelos longos, também pretos, voando ao vento da noite. Douglas sempre se vestiu muito bem. Gostava de roupas pretas. Gostava de roupas chiques e confortáveis.
Os dois rapazes olharam para aquele homem e não entenderam o que ele estava fazendo. Ele estaria se expondo ao perigo de ser assaltado, morto, agredido de alguma forma? Ainda sobre as motos, os dois aceleraram o motor sem sair do lugar para intimidar a vítima, mas Douglas também não se moveu. Ele sabia que ambos estavam armados e sabia que haviam cometido vários crimes, muitos assaltos naquele bairro e ambos eram responsáveis por assassinatos nunca descobertos. O vento mudou de direção e Douglas sentiu o cheiro dos rapazes: era o sangue que ele mais gostava. Percebeu que ambos ainda não tinham ingerido nenhuma droga naquela noite. Melhor!
Ele deu dois passos em direção aos rapazes e ambos, ao mesmo tempo colocaram as motocicletas em movimento. Partiram em direção ao seu próximo alvo. Iriam depredar aquele homem destemido e ainda ficar com aquele carro velho. Passaram pelo vampiro que caminhava devagar pela Rua Nicolau Ferreira Mendes. Deram a volta e, insistentemente, rodavam ao seu redor mantendo uma distância cada vez menor.
Douglas parou. Olhou para os ladrões e inundou o espaço onde estavam com a luz vermelha de seus olhos. Os meliantes foram imobilizados pela força mental do vampiro. Desceram das motos e se aproximaram. O mais jovem, apenas vinte anos, ainda trazia nas mãos uma arma de fogo. Douglas conhecia aquela arma, era uma Taurus GX4 9mm. Toninho roubou aquela arma há dois anos e já havia matado três pessoas. O outro rapaz, Gibi, também estava armado, mas ainda não havia usado sua arma. Douglas riu. Estava cercado por dois bandidos perigosos e procurados pela polícia nacional.
_ Precisando de ajuda? – Douglas ouviu uma voz feminina que conhecia há muitos anos.
_ Marriette, querida – ele sorriu ao ver a taxista amiga. – Há quanto tempo não nos divertimos juntos?
Os dois motoqueiros olharam para os dois vampiros sem poder se mexer e não estavam entendendo nada.
Marriette estava a trabalho. A vampira taxista de Juiz de Fora, foi transformada por Douglas em 1967 e desde então trabalha nas ruas da cidade à noite. É uma mulher muito bonita e sexy.
_ Esses rapazes estão incomodando você? – perguntou ela rindo e fazendo suas presas se alongarem.
Toninho estava assustado com a presença dos dois vampiros, com o cheiro de Patchouli que invadiu suas narinas e com aquela luz vermelha que impedia a quem quer que fosse, naquele local, de ver o que estava acontecendo. Ninguém que por ali passasse, veria a luz sobrenatural, ou sentiria o perfume que os descendentes de Augspartem exalavam quando excitados. O rapaz sentiu um calor úmido entre as pernas e uma lágrima sair de seus olhos pela vergonha de ter se urinado de medo.
Os vampiros riram e se aproximaram dos jovens bandidos. Marriette gostava de rapazes, mas não teria tempo para brincar com os dois que perseguiam Douglas. Sentiu o cheiro de Gibi e passou a língua em seu pescoço. Nesse momento, Douglas, usando sua força vampiresca agarrou os cabelos imundos do assassino e cravou suas presas naquela veia que estava cheia do seu alimento preferido. Sorveu o líquido espesso e forte daquele jovem, mas pensou e definiu que não o mataria. Parou de beber daquele sangue quando ainda sobrava um pouco de vida naquele corpo. Olhou em direção à amiga e viu que ela acabava de soltar no chão o corpo do bandido mais jovem com o pescoço estraçalhado. Gibi estava morto. Douglas fez com que Toninho visse o amigo morto e preferiu não apagar sua memória. Pegou o celular do bandido e ligou para polícia. Se ele contar o que aconteceu, será considerado louco.
_ Você vai trabalhar a noite toda? – Perguntou ele à vampira sua amiga.
_ Vou trabalhar até a hora que estiver a fim – respondeu ela. – Você está bem?
_ Muito bem – ele ouviu sirene de polícia chegando no bairro. – Acho melhor irmos embora – ele riu.
_ Com certeza – ela também riu.
Os dois vampiros se beijaram no rosto e se abraçaram. Os dois corpos estavam quentes pelo sangue que ingeriram.
_ Douglas – gritou ela entrando no seu táxi, – acho que está na hora de você trocar de carro.
_ Ainda não – riu ele fechando a porta e dando a partida no Opala Preto.

* A Avenida Barão do Rio Branco de Juiz de Fora é a terceira maior avenida reta do Brasil perdendo para a Avenida Teotônio Segurado em Palmas e a Avenida Caxangá em Recife, com 6,4 km de extensão e inaugurada em 1836.
** Mansão construída pelo Vampiro Frederich Augspartem, em 1726, na cidade fictícia de São Luiz – A MANSÃO DO RIO VERMELHO – trilogia vampiresca publicada pela Editora Novo Século, do autor.

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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