QUEDA LIVRE – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

QUEDA LIVRE

Ele estava no alto da laje, mas não sabia de onde. Sabia, mais por instinto que tinha que descer. Achou um buraco naquele concreto e se meteu dentro dele. O corpo magro e malvestido não apresentava obstáculos para sua passagem. Caiu no andar de baixo em um monte de panos velhos que suavizaram sua queda. Olhou em volta, torcendo por uma porta, mas não achou nada a não ser sujeira e lixo acumulado. Precisava descer. Precisava sair dali. Achou uma nova passagem no chão, dessa vez havia um cano que ia até o chão. Como um bombeiro militar, agarrou-se aquele metal e desceu escorregando.
No espaço inferior aonde chegou, havia gente. Dois homens agarraram uma mulher que se debatia tentando se livrar do estrupo. Um dos bandidos parou o que estava fazendo e correu para pegá-lo, mas ele se esquivou e o homem caiu se ferindo. Ele observou que os três estavam nus e os homens excitados. A mulher estava assustada e com os olhos arregalados. Ele gritou e ao ouvirem seu grito, os dois homens se jogaram pela janela ao lado e desapareceram. A mulher chorou como nunca. Ele certificou-se de que ela estava segura e correu novamente. Olhou pela janela por onde os estupradores se jogaram e não conseguiu ver o chão. Eles deveriam ter morrido na queda.
Procurando por nova saída, encontrou uma escada e desceu por ela. O que encontrou foi um amplo espaço onde pessoas vestidas de negro e encapuzadas, rodavam e cantavam em torno de um caldeirão que soltava fumaça mesmo sem fogo. Magia negra? Feitiçaria. Os bruxos viram o rapaz franzino que passava por ali e pararam o cântico de invocação e o encararam. Antes que pudessem se mover para pegá-lo, ele passou entre eles e derrubou o caldeirão vazio, interrompendo o culto. Os bruxos, perplexos, gritaram e correram cada um para um lado sem saber o que fazer. Ele passou correndo e trancou a única porta que encontrou. A gritaria no interior do cômodo foi intensa.
A sua frente encontrou uma escada. A escada era circular e parecia ser aberta no infinito. Ele não via nada aos lados e nem onde terminaria aquele caracol. Enfim, tropeçou e foi lançado no ar. A queda foi dolorosa, mas ele precisava saber onde estava e precisava descer mais. Descer porque e para onde ele não sabia.
Respirou fundo, tentou minimizar mentalmente a dor que estava sentindo e correu em frente. Havia uma luz no fim e ao chegar, encontrou mais um homem que parecia esperá-lo. O homem sorriu com maldade no olhar e pegou uma faca grande e brilhante na mesa a frente. Iria matá-lo ali. Ele parou, encarou o homem e esperou. O loiro e maltratado pela vida se aproximou e levou uma paulada no abdômen. Quando se contorceu de dor e abaixou a cabeça, recebeu um chute na cabeça e caiu sobre a própria faca. O rapaz correu. Não queria saber se o ogro morreu. Correu. Correu até sentir dor nas pernas. Correu até ter falta de ar. Correu até não aguentar mais e caiu em um buraco no chão. A queda foi longa, mas foi amparada por aquilo que lhe pareceu ser feno. Ele respirou fundo, esticou os braços e pernas e sentiu alguma coisa gelada encostando neles. Olhou ao redor e estava em um lugar cheio de mato seco e milhares de cobras de todos os tamanhos. Apavorado, gritou alto e pegou novamente o pedaço de pau com que tinha derrubado o ogro no andar de cima. Com aquilo, foi abrindo caminho com dificuldade para chegar em um lugar onde ele podia ver luz. Havia ali luz do sol. Havia um buraco na parede e ele se precipitou por ele.
Caiu em uma calçada gelada, em um lugar desconhecido e ele estava muito debilitado. Os ferimentos e as dores eram muito grandes. Ele olhou para o buraco de onde saiu e o prédio imenso começou a tremer. De repente, o prédio começou a emitir um barulho imenso e se desmaterializou desaparecendo à sua frente. Ele respirou e, a duras penas, se levantou. Conseguiu sair daquela prisão. Precisava se recompor e seguir em frente. Um dia, isso iria acabar.

            

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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