PÃO DO DIA SEGUINTE – Pão de Canela e Prosa
Pão de Canela e Prosa

PÃO DO DIA SEGUINTE

Eu entrei na padaria. Era hora de comprar pão de sal fresco que, eu sabia, naquele horário estava saindo do forno.
A fila não era pequena, mas naquela padaria, naquele horário, para comprar aquele pão, valia a pena esperar.
Fila não anda, né? Não adianta que haja cinquenta filas, a que você entra nela, para e só anda no mês que vem.
Eu conheço muita gente na padaria e uma das atendentes pesando me cumprimentou, eu respondi e uma mulher que estava na minha frente com a neta comentou que não a conhecia. Eu lhe disse que foi a mim o cumprimento, mas ela nem se interessou em ouvir.
Nisso, uma mulher colorida – parecia a mulher que queria comprar remédios sem receita, (mas isso é outra crônica), entrou na frente da avó com a garotinha para ver sacos de paes que estavam dispostos nas prateleiras ao lado da fila que, acho, estava andando pra trás. A mulher de maquiagem permanente que, na sua idade aumenta a idade, estava vestida de calça verde bandeira e blusa de seda estampada e bem colirida com um lenço roxo no pescoço, apesar do calor de dezembro em Juiz de Fora.
Para ficar linda, ou tentar, a verde-roxo-toda-colorida não poderia usar óculos e, por isso mesmo, não enxergava o preço do saco de pão de batata e nem a validade. Achou um saco e alguém leu para ela que o pão fora feito ante-ontem. Ela disse:
“Muito velho!” – disse ela.
Alguém lhe disse que a validade eram mais dias, mas ela não aceitou.
A fila não andava porque o paozinho francês que todo mundo esperava ainda demoraria alguns minutos.
A neta da avó que estava a minha frente e quase fora atropelada pela “validade passada”, achou um saco de pão com data do dia anterior e mostrou para a mulher de olhos arregalados pelas plásticas.
“Mas ontem também é velho!” – reafirmou ela.
Ela tentou colocar o saco de pão que tomou da mão da criança no lugar e derrubou vários outros sacos de pães que se misturaram. Havia então, sacos de pães de batata, de milho, de cebola, pães carecas e sovados caídos no chão. A mocinha que me cumprimentou, chegou para ajudar, mas a velha achando que estava em casa e que todo mundo era seu empregado, não se mexeu do lugar, estava atrapalhado o que tentavam todos arrumar.
“Mas só tem pão velho” – repetiu ela desapontada.
Eu peguei um saco de pão de cebola e disse a ela:
“Esse é de hoje! Está fresquissimo.”
“Vou levar!” – Disse ela.
Eu respondi: “Ache outro. Esse é meu!”
Ela me olhou assustada e com ódio e todo saco de pão que a funcionária punha na prateleira, ela tirava para tentar ler a validade sem conseguir.
“Mas só tem pão velho!” – Repetiu.
Eu peguei um saco de pão de batata e gritei paea ela:
“Achei um saco de pães que foi feito amanhã! Não pode ter outro mais novo.”
“Eu quero um saco de pães que foi feito amanhã também!” – Ela gritou virando os olhos com dois riscos irregulares de sombra azul nas pálpebras. – “Só levo se foram feitos amanhã.”
A criança ria. As pessoas na padaria riam e, antes que ela pegasse o meu saco de pães que foram feitos amanhã, eu abandonei a fila. Aliás, a fila estava me levando no caminho inverso, para a porta da padaria.
Paguei o saco de pão do futuro e ainda ouvi a colorida ridícula gritando com a funcionária da padaria que deveria dar um jeito porque ela só sairia dali com o pão que foi feito no dia seguinte.

Crônica “NA FARMÁCIA”: https://paodecanelaeprosa.com.br/na-farmacia/

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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