PEDIDO DE AJUDA NO VIADUTO DAS ALMAS – Pão de Canela e Prosa
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PEDIDO DE AJUDA NO VIADUTO DAS ALMAS

Mauro saiu de Lafaiete para ir buscar a família em Belo Horizonte. A mulher e os dois filhos estavam na casa da avó materna na capital mineira. Ele saiu do trabalho, pegou seu opala azul e se meteu na estrada
A noite estava muito escura. Fazia frio e chovia de quando em vez. A BR3, atualmente BR-040, no sentido Rio de Janeiro a Belo Horizonte tinha trechos muito bons, mas também apresentava grandes distâncias de buracos e irregularidades no asfalto.
Um local ficou famoso pelo número de acidentes, muitos com vários mortos que era denominado de Viaduto das Almas.

“O Viaduto das Almas localiza-se no km 592 da BR-040, a cerca de 60 km do centro de Belo Horizonte. Inaugurado pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1957, fazia parte da então BR-3, rodovia que ligava o Rio de Janeiro até a capital mineira. A estrutura, em curva acentuada, possui 262 metros de extensão, por 8,5 de largura, sendo em mão dupla. (https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Viaduto_das_Almas)

Trocaram o nome do Viaduto para tentar diminuir a morbidade do local, mas muitos motoristas arriscam suas vidas e a de outras pessoas com altas velocidades e imprudências em todas as estradas do país. Várias campanhas são feitas diuturnamente, mas à frente do volante muitos se sentem superpoderosos e se arriscando matam ou morrem nessas vias.
O número de acidentes aumenta sempre em dias de chuva com pistas molhadas e visibilidade bem diminuída.
O Viaduto das Almas, sobre o córrego das Almas, foi inaugurado em 1957 pelo então presidente Juscelino Kubitschek e era uma obra importantíssima para a época. Com uma extensão grande, possuía apenas dupla mão e os motoristas eram obrigados a diminuir a velocidade para entrar nesse trecho.
Mauro detestava dirigir à noite, mas trabalhava até às dezoito horas e queria aproveitar a noite com sua família. Tão logo saiu de Conselheiro Lafaiete, começou a chover. Uma chuva fina, mas incomodava o motorista que conhecia bem aquele trecho da antiga BR3. Velocidade reduzida, quando ele passou por Congonhas já era noite. A pista repleta de buracos fazia com que ele redobrasse sua atenção.
E lá estava ele: o Viaduto que naquele ano de 1964 todos já temiam, o Viaduto das Almas. Motorista exímio, Mauro não se abalou e entrou devagar. A chuva continuava caindo e ele avistou uma pessoa no Viaduto. Não acreditou no que via, mas ali estava uma mulher parada na chuva. Ela parecia estar com algum problema e Mauro ainda hesitou se parava ou não. Parou! Abriu o vidro da janela e ela gritou:
_ Por favor, ajude. Aconteceu um acidente e caiu um carro lá embaixo.
Ele olhou a mulher bem vestida de pele clara e cabelos castanhos molhados da chuva e saiu do carro. Olhou para o local que ela indicou e pediu ajuda a outros motoristas que também pararam prestimosos. O socorro, na época, eram eles mesmos. A mulher de blusa branca não parecia sentir o frio que fazia naquele lugar.
_ Tem gente viva lá embaixo – repetia ela insistentemente.
Com ajuda de um caminhoneiro, Mauro se prendeu em uma corda e desceu as estruturas do pontilhão. Temia pela sua vida. Temia pelo que diziam haver de cobras naquele lugar, mas com uma lanterna fraca na boca foi se aproximando do corcel vermelho que estava destruido no vale. Um corpo de um jovem estava fora do carro, morto. O motorista sobre o volante tivera a mesma sorte, mas então Mauro ouviu o choro de um bebê e deu a volta abrindo a porta do carona. Uma mulher estava curvada sobre o corpo e ao levantá-la, ele descobriu a criança de meses de vida. Outros homens desceram para ajudá-lo e ele entregou a criança sem nenhum arranhão para os outros e então olhou para a mulher. Assustou-se. Era uma mulher muito branca, de cabelos castanhos molhados pela chuva, vestindo uma camisa branca. Ele afastou-se assustado: era a mulher que lá em cima, fê-lo parar e salvar o próprio filho. A mulher dentro do carro também estava morta. A criança foi salva.
Mauro olhou para o viaduto e ainda a viu. Ela sorriu e desapareceu na chuva.

                  

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Artur Laizo Escritor

Artur Laizo nasceu em 1960, em Conselheiro Lafaiete – MG, vive em Juiz de Fora há quatro décadas, onde também é médico cirurgião e professor. É membro da Academia Juiz-forana de Letras e da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafaiete, Sociedade Brasileira de Poetas Aldravistas e presidente da Liga de Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora - LEIAJF.

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